Pesquisadores procuram origens da aids na África

Em busca das origens da aids, um grupo de investigadores encontrou pela primeira vez um vírus similar ao HIV em um chimpanzé em estado selvagem, e em um lugar da África diferente do que se supunha. Este tipo de chimpanzé, da Tanzânia, não pode ter sido a fonte da aids nos seres humanos, porque a variedade dos vírus nele encontrado apresenta diferenças genéticas em relação àquela encontrada em pessoas. Mas agora que ficou demonstrado que se pode realizar experiências com vírus na selva sem perturbar as espécies em perigo de extinção, os cientistas do Alabama iniciarão uma etapa decisiva: procurar diferentes tipos de chimpanzés em um setor mais remoto da África, onde se acredita que o vírus saltou dos animais para os seres humanos. Já faz tempo que os cientistas sabem que os primatas são portadores de sua própria versão do vírus da aids. Mas até agora estes vírus só haviam sido encontrados em chimpanzés em cativeiro. Ninguém conhece o caráter dominante, o âmbito geográfico nem a diversidade genética do vírus presente em chimpanzés em liberdade. "O estudo nos animais em estado selvagem é muito difícil", observou a doutora Beatrice Hahn, da Universidade do Alabama, em Birmingham. O estudo será publicado na edição de sexta-feira da revista Science. O informe é importante porque demonstra que a equipe de Hahn desenvolveu "um métdo muito efetivo para estudar a evolução do vírus nestas espécies, sem invasões nem perturbações ecológicas", disse o doutor Anthony Fauci, principal especialista em aids do Instituto Nacional de Saúde. "Faz parte do processo global de rastrear, de verdade, sua origem". "Encontrar este vírus pela primeira vez na selva representa uma oportunidade", acrescentou o parceiro de Hahn na pesquisa, George Shaw, do Instituto Médico Howard Hughes. Muitos cientistas acreditam que o HIV, o vírus causador da aids, provavelmente se originou no VIScpz, uma cepa do vírus de imunodeficiência dos símios, encontrado em uma subespécie de chimpanzé da África centro-ocidental. Na esperança de confirmar tal teoria, a equipe de Hahn elaborou uma prova altamente sensível para examinar amostras de urina e fezes em busca de anticorpos contra o VIS, e para detectar material genético em amostras fecais. Solicitaram a ajuda de especialistas em primatas, entre os quais Jane Goodall, que estudou colônias de chimpanzés na Tanzânia, Uganda e Costa do Marfim. Dos 58 animais estudados, apenas um tinha o VIScpz - um macho saudável de 23 anos na colônia de Goodall, na Tanzânia. Este lugar está muito mais a leste do que o ponto onde os cientistas suspeitavam que se teria originado o vírus, de acordo com o estudo de chimpanzés em cativeiro. E a variedade de vírus descoberta no animal era geneticamente tão diferente que descarta a possibilidade de os chimpanzés da África Oriental serem a fonte do HIV, concluiu Hahn. Os animais em cativeiro que têm mais vírus similares ao HIV são de uma subespécie encontrada em países mais a oeste, no Gabão e em Camarões. Ali, os investigadores de primatas não realizaram estudos em colônias, como fez Goodall. É difícil observar, ainda que por instantes, esses animais. Por isso, os biólogos estão examinando as amostras fecais que, em seguida, submeterão a Hahn para testes de VIS. Encontrar o vírus nesses animais reforçaria a teoria orginal sobre a aids. De qualquer modo, a descoberta na Tanzânia é importante porque a cepa virótica do animal não é muito virulenta; nenhum dos chimpanzés com os quais ele teve contato sexual está infectado, disse Hahn. E estudar por que isto ocorre talvez "nos proporcine algumas pistas que nos ajudem a combater melhor o HIV nos seres humanos".

Agencia Estado,

17 de janeiro de 2002 | 18h29

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