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Pesquisadores querem incluir saúde nos debates da Rio+20

Para ajudar a embasar discussões, Fiocruz enviou ao governo documento que aponta relação entre degradação ambiental e riscos à saúde

Clarissa Thomé, do Rio de Janeiro,

28 Maio 2012 | 22h30

Na última rodada de negociação para o documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que começa nesta terça, 29, em Nova York, a expectativa de pesquisadores brasileiros é que os temas saúde e clima sejam incluídos nos debates. Diante da falta de menção ao assunto no "Esboço Zero", preparatório para o documento "O futuro que queremos", a Fundação Oswaldo Cruz encaminhou ao governo federal relatório em que aponta a relação entre degradação ambiental e risco à saúde, para ajudar a embasar as discussões. Nessa entrevista, o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, fala do desapontamento pela omissão do documento oficial. "Há uma relação simbiótica entre saúde e ambiente. E a face mais visível é a deterioração da qualidade de vida e da saúde", afirma.

A Fiocruz preparou documento pleiteando que o tema saúde entre nos debates da Rio+20. Em que se baseia essa proposta?

Causou muita surpresa a total ausência do tema saúde no chamado Esboço Zero, que serviu de referência para o debate do posicionamento dos países na Rio+20. Evidente que esse é um tema central quando se pensam as questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável, às consequências da degradação ambiental, às formas de produção que levam à redução da biodiversidade.

Que efeitos a degradação ambiental têm para a saúde?

A consequência imediata da redução da biodiversidade é a exposição maior do ser humano ao surgimento de doenças emergentes, como hantavirose, Ebola. O aquecimento global leva a agravos diretos, como é o caso das doenças pulmonares associadas à poluição. Áreas de clima temperado, onde antes não circulavam vetores da malária, dengue, passam a ter condições climáticas para a expansão desses mosquitos. Há uma relação simbiótica entre saúde e ambiente. E a face mais visível é a deterioração da qualidade de vida e da saúde. A escassez de água provoca maior possibilidade de contaminação, aumentam casos de cólera, esquistossomose. A ocupação desordenada faz com que as pessoas se tornem mais vulneráveis à propagação de doenças. Então, nós achamos que é central pensar a saúde e o desenvolvimento sustentável.

O fato de não haver menção à saúde pode ser um indicativo de que a Rio+20 não tenha intenção de resolver problemas estruturais, mas apenas tratar superficialmente o tema?

Há uma expectativa em relação à Rio+20 se as mobilizações feitas pelo governo, pela sociedade civil, pela própria Cúpula dos Povos, vão conseguir avançar no sentido que nós desejamos. Há questões centrais de avaliação crítica da chamada economia verde, que não seja apenas uma forma repaginada de apresentar modelos de desenvolvimento que deixem de lado as discussões sobres os efeitos da economia marrom sobre o meio ambiente e ao mesmo tempo continuem ainda orientados por uma ótica mais mercantilista, sem pensar o grande quadro da questão social, das iniquidades. Esse é um tema em aberto. Outro tema que me parece muito central e que está sendo relativamente descuidado é ter avaliação crítica sobre o que significaram as propostas da Rio92 e fazer um balanço crítico. Ali você teve uma série de indicativos, metas e que muitos ficaram pelo caminho. E num certo sentido esse silêncio, essa zona cinzenta, de você retomar um processo 20 anos depois sem fazer a avaliação crítica, me parece uma maneira de escapar um pouco de dar consequências a esse processo daqui para a frente.

O senhor acredita no poder de mobilização da Cúpula dos Povos para influenciar que a questão da saúde entre no documento final da Rio+20, se as vias diplomáticas falharem?

Essa mobilização da sociedade mais ampla sempre tem efeitos significativos. Há um constrangimento em torno do documento oficial, é preciso construir consensos. Há sempre preocupação que esses documentos gerem comprometimentos, que muitos países estão tentando evitar, seja por questões relacionadas à crise econômica, ou às eleições na Europa, nos Estados Unidos. A nossa aposta é nos dois sentidos - vamos atuar fortemente através dos canais institucionais, mas sempre apostar profundamente na mobilização da Cúpula dos Povos, porque ela é que vai dar a liga sobre a tomada de consciência e pressão sobre os governos.

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