Victoria Wickens
Victoria Wickens

Pesticidas reduzem capacidade de abelhas para polinizar, diz estudo

Trabalho publicado na 'Nature' mostra que exposição de insetos a neonicotinoides, banidos na Europa em 2013, leva à produção de frutos com menos sementes

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

19 Novembro 2015 | 16h00

Colônias de abelhas sem ferrão expostas a pesticidas neonicotinoides reduzem sua capacidade de polinizar culturas agrícolas, de acordo com um novo estudo publicado nesta quinta-feira, 19, na revista Nature

Esse tipo de pesticida - o mais utilizado no mundo - foi banido na Europa desde 2013, depois de diversos estudos terem deixado cada vez mais claro que sua aplicação afeta o comportamento e a reprodução das abelhas. 

Os estudos feitos até agora, no entanto, avaliavam apenas os efeitos dos pesticidas na mortalidade de abelhas, enquanto a nova pesquisa mostrou seus impactos nos importantes serviços de polinização que elas fornecem.

As abelhas são responsáveis por polinizar mais de 50% das plantas das florestas tropicais, 80% das do cerrado e 73% de todas as culturas agrícolas do mundo, de acordo com o projeto Polinizadores do Brasil, finalizado em outubro, com o envolvimento de cientistas de 18 instituições, sob coordenação do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio).

Experimentos realizados pelo projeto mostraram que a presença das abelhas aumenta a polinização - e consequentemente a produtividade - de culturas como algodão, tomate, melão, castanha, canola, maça e caju. Certas culturas, como a do maracujá, maçã e melão, são polinizadas exclusivamente por abelhas e não existiriam sem esses insetos.

No estudo da Nature, uma equipe internacional liderada por Dara Anne Stanley, da Universidade Royal Holloway, de Londres (Reino Unido), os pesquisadores estudaram como a exposição a baixos níveis de um pesticida neonicotinoide (theamethoxam) afeta a capacidade das abelhas para polinizar flores de macieira.

Os cientistas expuseram 24 colônias de abelhas a diferentes níveis de thiamethoxam por 13 dias e depois permitiram que elas tivessem acesso a plantações de macieiras. Os autores observaram não apenas o comportamento geral das colônias, mas também  o comportamento individual das abelhas.

Eles concluíram que as colônias expostas a neonicotinoides fazem menos visitas às flores de macieiras, coletando o pólen com menos frequência e produzindo maças com menos sementes, demonstrando uma taxa reduzida de serviços de polinização.

De acordo com Elina Niño, professora da Universidade da Califórnia, em Davis (Estados Unidos), o novo estudo traz uma importante contribuição sobre os estudos dos impactos dos neocotinoides. "É um estudo interessante, já que investiga não apenas como a exposição a pesticidas neonicotinoides afeta as abelhas, mas também como afeta seu 'produto final' - a fruta. É isso que as abelhas nos fornecem: polinização para garantir a segurança alimentar", afirmou Niño.

Complexidade. Segundo Gene Robinson, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (Estados Unidos), o estudo mostrou que, embora as colônias de abelhas tratadas com pesticida neonicotinoide tenham produzido maçãs com número reduzido de sementes, o mesmo não aconteceu com as abelhas que eram expostas individualmente ao pesticida.

"Este estudo destaca as complexidades da vida das sociedades de insetos e ilustra por que é importante pesquisar a ação de pesticidas tanto no âmbito dos indivíduos, como no âmbito das colônias. Essa é o único caminho para que possamos compreender verdadeiramente a influência dessas substâncias nas abelhas", afirmou Robinson.

Para Felix Wäckers, da Universidade Lancaster (Reino Unido) afirmou que, embora o novo estudo não seja surpreendente, levando em conta as evidências anteriormente reportadas de impactos dos neonicotinoides no comportamento dos polinizadores, o estudo é importante por demonstrar pela primeira vez que a exposição ao pesticida de fato compromete a polinização de culturas.

"Isso mostra que os fazendeiros têm um prejuízo econômico quando usam esse grupo de produtos para proteger suas plantações", afirmou Wäckers.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.