Pet, a garrafa (quase) imortal

Imagine só: Uma garrafa plástica do tipo PET leva mais de 100 anos para decompor no meio ambiente. Só que as garrafas PET só foram inventadas na década de 70, cerca de 40 anos atrás. Conclusão: se você tem menos de 40 anos, todas as garrafinhas plásticas que você já viu ou comprou na vida continuam por aí, em algum lugar do planeta.Elas podem estar enterradas em algum lixão, todas amassadas, mas não desapareceram. É possível que muitas delas, infelizmente, estejam boiando por aí em algum rio ou no meio do Atlântico. Mas não desapareceram. E é possível, felizmente, que muitas tenham sido recicladas e transformadas em novas embalagens, pêlos de vassoura, fios de costura, tapetes ou outra coisa do tipo. Mas não desapareceram, apenas se transformaram em outra coisa.Agora pense em todas as garrafas PET que você já consumiu na vida, em festinhas de aniversário, na academia, no escritório, na praia, no supermercado, em restaurantes. Cada garrafinha miserável e inescrupulosamente cara de água mineral e cada garrafão exagerado de refrigerante, daqueles que mal cabem dentro da geladeira. Todas elas continuam "vivas" em algum lugar do mundo. E não vão desaparecer por pelo menos mais algumas décadas.O plástico é, sem dúvida, um dos materiais mais úteis e mais ecologicamente incômodos que o homem já inventou. Só em 2006, o Brasil consumiu 378 mil toneladas de plástico PET, segundo dados postados nos sites da Associação Brasileira da Indústria do PET (http://www.abipet.org.br/index.php) e do Compromisso Empresarial para Reciclagem (http://www.cempre.org.br/). A boa notícia é que o Brasil é o segundo país que mais recicla esse material no mundo, atrás do Japão. O índice de reaproveitamento é de 51%, graças, em grande parte, a um exército de catadores pobres que ganham a vida catando as garrafinhas dos outros por aí.A má notícia é que os 49% não reciclados ainda são mais do que suficientes para entupir bueiros, poluir rios, oceanos e florestas. Graças, em grande parte, ao nosso desperdício e consumismo exagerado. Se as garrafas PET já parecem demais, imagine então todos os outros plásticos que consumimos no dia-a-dia: cada embalagem de presente, cada embrulho de sanduíche, cada sacolinha de supermercado. É plástico demais para um planeta só!Mas enfim, essa é uma coluna de ciência, então vamos falar um pouquinho de ciência também. O PET é um polímero sintético derivado do petróleo, assim como a maioria dos plásticos. Por isso os microrganismos decompositores na natureza têm dificuldade para digeri-lo.Porém, assim como é possível produzir álcool combustível a partir da fermentação de materiais orgânicos, como a cana-de-açúcar, é possível produzir plásticos por vias biológicas, que os microrganismos na natureza conseguem decompor com muito mais facilidade. Ou seja: plástico biodegradável.Uma estratégia consiste em usar bactérias geneticamente modificadas para produzir polímeros orgânicos, como vêm fazendo cientistas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT)do Estado de São Paulo. A bactéria se alimenta de açúcar e acumula um tipo de plástico dentro dela, chamado PHA -- assim como nós, seres humanos, acumulamos gordura quando exageramos na sobremesa. Depois é só desintegrar as coitadas das bactérias, fazer uma "lipoaspiração" de PHA e mandar para a indústria. (mais detalhes sobre o projeto no link: http://www.ipt.br/atividades/inovacao/exemplos/plastico/).Vários laboratórios e empresas no mundo estão trabalhando com tecnologia, que ainda precisa ser bastante aprimorada (e barateada) para competir com os plásticos sintéticos no mercado. Mas é um bom começo.Pense nisso quando comprar a sua próxima garrafa d’água.  Leia também as colunas anteriores na série "Imagine Só":  Se o seu copo d'água falasseA boa e velha luz do solTempo para pensar no tempoO universo invisívelSe Lula fosse uma planáriaSe beber, agradeça aos fungos  A origem dos combustíveis fósseisMeio homem, meio bactériaAs estrelas da noite

02 de abril de 2008 | 15h03

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