Phoenix vê neve em Marte que evapora antes de tocar o solo

Descoberta de argilas e carbonato de cálcio sugerem um passado úmido, mas o solo hoje é extremamente seco

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

29 de setembro de 2008 | 17h28

Nuvens a 4 km de altitude sobre o ártico de Marte produzem neve, mas os flocos vaporizam-se antes de tocar o solo, que é extremamente seco. A neve foi observada pelo "lidar", ou radar de laser, da estação meteorológica da sonda Phoenix. Esse instrumento emite pulsos de raios laser em alta velocidade e registra o reflexo da luz nas partículas presentes na atmosfera.   Mosaico de imagens mostra nuvens passando pelo horizonte diante da Phoenix. Nasa   "Vimos a neve caindo das nuvens, e estamos procurando evidências de que ela chega ao chão", disse Jim Whiteway, da Universidade de York, no Canadá, principal cientista responsável pela estação meteorológica da sonda. Whiteway e outros pesquisadores envolvidos na missão Phoenix participaram de uma entrevista coletiva promovida pela Nasa nesta segunda-feira, 29.   Outro resultado anunciado na entrevista foi a confirmação, por dois instrumentos da Phoenix - os laboratórios de análise química e de análise térmica - da presença de carbonato de cálcio e de argilas no solo.   Tanto o carbonato quanto argilas se formam, na Terra, na presença de água. "O pH da areia marciana, 8,3, é o pH dos oceanos da Terra, que têm esse nível de acidez por causa do carbonato de cálcio", disse o cientista responsável pelas análises químicas, Michael Hecht. Isso leva a crer que o ártico marciano já foi úmido no passado, disseram os pesquisadores. Mas definir há quanto tempo houve água na região é uma questão que terá de esperar.   "É difícil dizer quando pode ter ocorrido a interação" entre solo e água, disse William Boynton, principal cientista do instrumento de análises térmicas, o Tega. "Saber isso pode ter de esperar até termos trazido amostras de Marte para analisar na Terra". Hecht concordou com a avaliação do colega e afirmou que as superfície do solo marciano, na região investigada pela Phoenix, é extremamente seca, o que é surpreendente, já que há uma camada de gelo a poucos centímetros de profundidade.   "Vapor de água poderia aparecer no solo, vindo do gelo", explica o principal cientista da missão, Peter Smith.   Uma hipótese para explicar a total ausência de água na superfície é a presença de percloratos, compostos que absorvem água e cuja descoberta em Marte, anunciada no início de agosto, surpreendeu os cientistas. "Acho que os percloratos estão envolvidos nisso", disse Hecht.   A essa situação ambígua da água em Marte - presente, sob a forma de gelo, na atmosfera e a poucos centímetros de profundidade, mas não diretamente na superfície - soma-se a indefinição quanto à presença de matéria orgânica, moléculas essenciais para a existência de vida como a conhecemos. "Não somos capazes de dizer que tenhamos encontrado matéria orgânica", reconheceu Smith, definindo essa busca como a principal prioridade da sonda, de agora em diante.    "Nós temos um controle para matéria orgânica, um nível mínimo que pode representar contaminação dos nossos intrumentos por material vindo da Terra", explica Smith. "Ainda temos de testar esse controle e depois ver se encontramos, em Marte, níveis significativamente superiores".   Para isso, o Tega, instrumento composto por oito fornos que aquecem matéria recolhida pelo braço mecânico da sonda e testa os vapores produzidos, ainda tem quatro compartimentos livres, disse Boynton. "A partir de agora, vamos procurar a fundo por matéria orgânica".   A missão da Phoenix, iniciada em maio e projetada para durar um período de três meses, já está entrando em sua segunda prorrogação. O plano de manter a Phoenix operando após o fim de setembro já havia sido antecipado ao estadao.com.br pelo administrador da missão, Ramon De Paula, no início de agosto.   O gerente da missão no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, Barry Goldstein, reconheceu que o público tende a tratar as datas finais das missões da Nasa com ceticismo. "Todos se lembram dos robôs Spirit e Opportunity, que funcionam há cinco anos", disse. "Mas, no caso da Phoenix, em algum momento em novembro o consumo de energia da sonda vai superar a capacidade de geração de energia solar".   A região de Marte onde a Phoenix está encaminha-se para o inverno, e a partir de 1º de abril de 2009 o Sol não nascerá mais ali, o que inevitavelmente paralisará a sonda. Ao contrário dos robôs, a Phoenix não tem rodas que possam levá-la para climas mais ensolarados. Goldstein diz que pode ser possível ressuscitar a Phoenix meses mais tarde, quando o Sol voltar ao ártico, mas que não aposta nisso. "O frio até lá será tanto que os materiais da Phoenix ficarão quebradiços", explicou.

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