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Plutão é um planeta. E sempre foi

Cientistas querem rever conceitos estabelecidos em 2006, que causaram ‘rebaixamento’

David Grinspoon*, THE WASHINGTON POST

08 Maio 2018 | 03h00

Há três anos a New Horizons, nave especial mais rápida já lançada pela Nasa (a agência espacial americana), passou velozmente por Plutão, revelando espetacularmente as maravilhas desse mundo visto recentemente. Na próxima véspera de ano-novo – se tudo correr bem a bordo desse pequeno robô, operando extremamente longe de terra –, ela nos presenteará com imagens do mais distante corpo celeste jamais explorado, provisoriamente chamado Ultima Thule. Sabemos pouco sobre ele, mas que não é um planeta. Plutão, ao contrário, apesar de tudo que ouvimos a respeito – é um planeta.

+ Plutão, prazer em conhecê-lo

Por que dizemos isto? Quando nos referimos a “planeta” é para descrever mundos com determinadas qualidades. Quando vemos um como Plutão, com suas muitas características familiares – montanhas de gelo, glaciares de nitrogênio, um céu azul com camadas de névoa –, nós e nossos colegas, cientistas planetários, naturalmente usamos o termo “planeta”, para descrevê-lo e compará-lo com outros que conhecemos e amamos.

Em 2006, a União Astronômica Internacional (IAU na sigla em inglês) anunciou uma redefinição do termo planeta que excluiu muitos objetos, incluindo Plutão. Achamos que tal decisão foi um erro e uma definição lógica e útil de planeta incluirá muitos mundos mais. Temos usado a palavra planeta para descrever as maiores “luas” do sistema solar. “Lua” porque ela orbita em torno de outros mundos que, eles próprios, giram em torno da nossa estrela, mas quando nos referimos a Titã, de Saturno, que é maior do que o planeta Mercúrio e apresenta montanhas, dunas e cânions, rios, lagos e nuvens, nós o chamamos de planeta. O uso do termo não é errado nem anacrônico. É cada vez mais comum em nossa profissão e é exato.

Basicamente, os mundos planetários (incluindo as luas) são aqueles grandes o bastante para se contraírem em uma bola pela força da própria gravidade. Abaixo de um determinado tamanho, a força do gelo é suficiente para resistir ao arredondamento gravitacional e assim os corpos celestes menores são angulosos. Desta maneira, mesmo antes da New Horizons chegar lá, sabemos que Ultima Thule não é um planeta. Entre os poucos fatos que conseguimos confirmar sobre este corpo é que ele é minúsculo (pouco mais de 27 quilômetros de diâmetro) e não esférico. O que nos oferece um critério físico, natural, para separar os planetas entre todos os pequenos corpos que estão em órbita no espaço – cometas gelados e com pedras ou asteroides metálicos e rochosos, todos são pequenos e irregulares porque sua gravidade é muito frágil para se arredondar.

O desejo de reavaliar o significado de “planeta” surgiu por causa de duas empolgantes descobertas sobre o nosso universo. Existem planetas em quantidade inacreditável além do nosso sistema solar – os chamados “exoplanetas” –, girando em torno de praticamente cada estrela que vimos no céu. E existe um número bem grande de pequenos objetos gelados em órbita em torno do nosso sol, na esfera de Plutão.

À luz dessas descobertas, é sensato perguntar que objetos descobertos que giram em torno de outras estrelas devem ser considerados planetas? Alguns são mais como estrelas. E como estrelas como nosso sol são conhecidas como “estrelas anãs” – e ainda são consideradas estrelas –, faz sentido considerar que pequenos corpos gelados como Plutão ocupam outra subcategoria de planeta, o “planeta anão”. Mas o processo para redefinir o planeta foi muito falho e amplamente criticado mesmo por aqueles que aceitaram a essa conclusão. E na conferência da IAU de 2006, em Praga, os poucos cientistas que permaneceram no encontro até o fim (menos de 4% dos astrônomos de todo o mundo e porcentagem ainda menor de cientistas planetários) ratificaram uma definição esboçada às pressas que contém inúmeras falhas. 

Por exemplo: ela define um planeta como um objeto em órbita ao redor do sol – portando desqualificando os planetas em órbita de outras estrelas, ignorando a revolução dos exoplanetas e decretando que basicamente todos os planetas no universo não são, na verdade, planetas.

Em linhas gerais, os astrônomos ignoram a nova definição de “planeta” cada vez que discutem todas as empolgantes descobertas de planetas na órbita de outras estrelas. E aqueles, como nós, que realmente têm estudado durante toda sua vida os planetas, também abordam os planetas anões sem usar asteriscos. Mas é irritante ter de explicar as ideias errôneas para o público que acha que, como Plutão foi “degradado”, ele deve ser mais um asteroide de forma desigual do que o planeta vibrante e complexo que é. 

Em março, em Houston, cientistas planetários se reuniram para debater novos resultados e ideias na conferência anual denominada Lunar and Planetary Science Conference. Uma das apresentações tinha o título Uma definição geofísica de Planeta, quando ficou esclarecido que: “mantendo a classificação científica sólida e a intuição das pessoas, propomos uma definição com base geofísica de ‘planeta’ que enfatiza as propriedades físicas intrínsecas de um corpo, mais do que as propriedades orbitais extrínsecas. A paráfrase simples da nossa definição de planeta, especialmente adequada para alunos de escolas elementares, pode ser: ‘objetos circulares no espaço menores que estrelas’”.

É provável que em um determinado momento a IAU reconsidere sua definição falha. Nesse ínterim, as pessoas continuarão se referindo aos planetas que vêm sendo descobertos em torno de outras estrelas como planetas e continuaremos nos referindo aos objetos redondos em nosso sistema solar e em outras partes como planetas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*GRINSPOON É ASTROBIOLOGISTA E ESTUDA A EVOLUÇÃO CLIMÁTICA E CONDIÇÕES DE HABITAÇÃO DE OUTROS MUNDOS. ALAN STERN É O PRINCIPAL INVESTIGADOR DA MISSÃO NEW HORIZONS PARA PLUTÃO E O CINTURÃO KUIPER.

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