Osservatore Romano
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Polarização abre caminho para ‘terceira via’

Nº 2 do Vaticano ataca d. João Aviz, que exigia transparência, e recebe apoio de d. Odilo; cardeal húngaro pode atrair consenso

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo,

12 Março 2013 | 23h11

CIDADE DO VATICANO - O cardeal brasileiro João Braz Aviz causou na segunda-feira um terremoto dentro da Cúria, trocando farpas com o secretário de Estado, Tarcisio Bertone, durante a última reunião do Colégio Cardinalício, e levando para o conclave a divisão escancarada da Igreja. Durante a discussão diante de todos os cardeais, o brasileiro d. Odilo Scherer pediu a palavra e defendeu Bertone.

O embate, cujo teor só veio à tona nesta terça-feira pelo jornal italiano La Republicca, pode influenciar diretamente no resultado da eleição que vai escolher o sucessor de Bento XVI, pois a disputa entre d. Aviz e o número 2 do Vaticano teria enfraquecido o favoritismo dos dois principais papáveis - d. Odilo e o cardeal italiano Angelo Scola - e aberto caminho para um candidato alternativo, o húngaro Peter Erdo. Será eleito papa o cardeal que receber dois terços dos votos.

Já se sabia que Bertone havia sido pressionado durante a reunião de segunda-feira dos cardeais por causa dos problemas de gestão na Cúria e, principalmente, no Banco do Vaticano. Mas os detalhes vazados nesta terça-feira revelam que o número 2 do Vaticano não se intimidou. A certa altura, Bertone tomou a palavra para acusar d. Aviz de estar repassando o conteúdo das reuniões secretas à imprensa. Foi uma resposta à atuação de d. Aviz na semana passada, quando foi ovacionado durante as primeiras reuniões pré-conclave por pedir uma reforma na gestão da Igreja e maior transparência do Instituto para Obras Religiosas - o Banco do Vaticano.

Bertone, segundo fontes dentro do Vaticano, teria usado o vazamento supostamente promovido por d. Aviz para minar sua credibilidade diante dos outros cardeais. D. Aviz, porém, não deixou barato. Pediu a palavra e negou que tivesse vazado qualquer tipo de informação. Seu discurso recebeu fortes aplausos.

Foi então d. Odilo quem pediu para falar, fazendo uma ampla defesa do Banco do Vaticano e da própria Cúria. Para vaticanistas, essa intervenção pode ter afetado suas chances nas eleições. Já outros alertam que Scherer foi hábil e admitem que ele soube defender seu argumento.

Argumento. D. Odilo é visto como um candidato da situação, o que passou a ser descrito como "Partido Romano", defendendo posições mais tradicionais e rebatendo duras críticas da falta de transparência da Cúria nos últimos dias. O brasileiro já ocupava o conselho do Banco do Vaticano, sob duros ataques, e teve seu mandato renovado por mais dois anos há menos de um mês, numa indicação de que continua sendo um homem de confiança do grupo no poder. Nos últimos meses, a Justiça italiana chegou a congelar contas do banco e a União Europeia deixou claro que a instituição não seguia as regras internacionais de transparência.

Mas, para o jornal Corriere de la Sera, a ação coordenada da Cúria defendendo o Banco do Vaticano significaria o retorno da "sombra dos corvos" - uma forma que os críticos de Bertone passaram a usar há meses para atacar o grupo que teria minado o pontificado de Bento XVI e forçado o alemão a renunciar para desmontar o grupo.

A disputa, segundo vaticanistas e pessoas próximas à Cúria, teria sido levada nesta terça-feira diretamente ao conclave, de certa forma determinando o padrão da votação. Nomes de cardeais que estariam correndo por fora e que representariam um compromisso entre as facções teriam ganhado força nesta terça-feira, na primeira eleição, por conta do confronto aberto entre os anti e pró-Cúria.

Não por acaso, nomes fora da disputa entre as duas alas provavelmente se saíram bem na primeira votação desta terça-feira. O jornal italiano La Repubblica cita o cardeal húngaro Peter Erdo, uma espécie de terceira via.

Vazamento

Ao Estado, o cardeal português José Saraiva Martins deixou claro que d. Odilo Scherer ainda conta com chances de ser eleito. "Ele é um dos candidatos mais fortes", disse d. Martins, momentos antes do início do conclave. O cardeal português não vota, por ter mais de 80 anos. "Queremos um papa que esteja pronto para atender às exigências da Igreja e com um perfil de um homem capaz de levar sua mensagem às pessoas", disse, repetindo o que disse vários dos cardeais nas últimas semanas - e que poderia se encaixar em vários dos papáveis citados até agora.

Já o cardeal camaronês Christian Tumi insistiu nesta terça-feira que a eleição deve ser rápida e o resultado poderia ser conhecido ainda nesta quarta-feira. "Eu acho que já saberemos quem será o papa ainda nesta quarta-feira. É essa minha impressão", disse. Tumi, por conta da idade, também já não vota.

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