Política ambiental brasileira tenta conciliar o inconciliável, diz ambientalista

Iara Pietricovsky criticou agenda ambiental e justificou ausência da Cúpula dos Povos nas reuniões preparatórias para a Rio+20 promovidas pelo governo

Heloisa Aruth Sturm, do Rio,

10 Maio 2012 | 19h18

 A antropóloga e ambientalista Iara Pietricovsky, integrante do Grupo de Articulação da Cúpula dos Povos e representante do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), criticou a agenda ambiental do governo brasileiro e justificou a ausência da Cúpula nos Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável (DDS), série de reuniões promovida pelo governo às vésperas da Rio+20.

"A política ambiental brasileira é uma política que tenta conciliar o inconciliável", afirmou Iara em entrevista ao Estado durante um seminário internacional promovido pela Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong), no Rio de Janeiro. "Querem conciliar o interesse do setor produtivo faminto por expansão, por incentivos fiscais, e pela liberação de dívidas de toda sorte, o que tem sido a prática histórica".

Para ela, o governo tem adotado uma postura tímida e acuada nas questões ambientais. "O Ministério do Meio Ambiente não tem capacidade instalada pra responder, com a rapidez e os conteúdos necessários, à demanda e aos enfrentamentos de conflitos que estão surgindo e que se intensificarão".

Iara cita como exemplo a polêmica envolvendo a recente aprovação do Código Florestal pela Câmara. A presidente Dilma Rouseff sofre agora a pressão de ruralistas e ambientalistas para promover vetos ao documento, e tem até o dia 25 deste mês para decidir. "Eu sei que pessoalmente a Dilma tem essa convicção, não sei se politicamente ela vai conseguir, mas se ela vetar, estará dando um sinal muito importante para a comunidade internacional".

Diálogos. Nesta semana, a organização da Cúpula divulgou uma nota comunicando a não participação nas reuniões preparatórias para a Rio+20 promovidas pelo governo. A decisão foi motivada justamente pela ausência de diálogo. "A proposta inicial era 'vamos fazer juntos', mas isso não aconteceu", afirmou Iara. Ela acredita que a metodologia a ser adotada nos Diálogos não influenciará a discussão oficial, e questiona a forma com que essas reuniões serão conduzidas, por não permitirem um debate mais participativo da sociedade. "Poderíamos estar usando isso pra construir pactos muito mais densos e muito mais articulados entre aqueles que defendem o modelo atual e os que têm o pensamento de contraposição e de alternativas".

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