Por baixo da pele

Imagine só: por baixo da pele somos todos iguais. Sei que não estou dizendo nenhuma novidade, mas achei que a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos - um país com um histórico de racismo e segregação racial duríssimo - seria um bom momento para fazer uma reflexão científica sobre a questão das raças e da identidade humana.   Sempre que ando de metrô ou caminho pela rua, olho para as pessoas ao me redor e me impressiono com a variedade infinita de formas do ser humano. Gordos, magros, altos, baixos, brancos, negros, mulatos, loiros, ruivos, morenos ... Todos temos a mesma combinação de partes: uma boca, um nariz, dois olhos e duas orelhas, mas cada um de nós é incrivelmente diferente do outro. E somos todos brasileiros: desde o Pelé até a Gisele Bündchen.   Você pode botar as 6 bilhões de pessoas vivas do planeta lado a lado numa fila e não encontrará duas iguais - talvez muito parecidas, mas jamais idênticas (a não ser que sejam gêmeos idênticos, claro, gerados de um único embrião que se dividiu em dois). Isso deve-se ao embaralhamento de genes que ocorre durante a produção de células germinativas e no desenvolvimento embrionário, como já abordei em uma de minhas colunas anteriores. Ao mesmo tempo, porém, nossas diferenças são incrivelmente superficiais. Somos todos incrivelmente semelhantes. Basta olhar por baixo da pele e as diferenças desaparecem.   Quem já teve a oportunidade de visitar a exposição Body Worlds sabe mais ou menos do que estou falando (e quem ainda não teve pode ver algumas fotos no site http://www.bodyworlds.com/en.html). Nela, o anatomista alemão Gunther von Hagens exibe corpos reais plastificados em posições cotidianas, como se fossem estátuas, com todos os músculos, órgãos ligamentos e tendões à mostra.   Ali fica óbvio que, por baixo da pele, somos todos iguais. É como se as diferenças desaparecessem num passe de mágica. Ali não há negros nem brancos nem amarelos. Há apenas seres humanos, todos feitos da mesma carne e do mesmo osso. Ali fica óbvio que o racismo é uma idiotice. Somos todos membros da mesma espécie, Homo sapiens. Só muda um pouquinho a embalagem (e ainda bem!... já pensou se todo mundo fosse igual? Seria uma chatice sem tamanho.)   Outra forma de enxergar isso é olhar para uma foto como esta, do artista Nick Veasey, em que se enxerga apenas o esqueleto das pessoas. Alguém aí consegue dizer qual é a raça de cada passageiro? Quem é bonito ou quem é feio?   Por isso a eleição do negro Barack Obama é uma coisa incrível pelo aspecto cultural-social-histórico dos EUA e, ao mesmo tempo, algo que não deveria ter qualquer importância, pelo aspecto genético da cor de sua pele.   Cerca de um ano atrás, o brilhante, porém meio maluco, James Watson - co-descobridor da estrutura molecular do DNA - cometeu uma das maiores gafes da história da ciência ao dizer - sem qualquer fundamentação científica - que os negros eram geneticamente menos inteligentes do que os brancos. Seja lá da onde foi que ele tirou isso, certamente não foi por uma comparação entre George Bush e Barack Obama.   Pense nisso a próxima vez olhar para as pessoas a sua volta.   Herton Escobar passou as últimas semanas na Amazônia, mas o Imagine Só volta com texto inédito nesta quinta-feira

06 de novembro de 2008 | 15h02

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