Por um lugar ao Sol

Em primeiro lugar, gostaria de pedir desculpas por não ter atualizado esta coluna nas últimas duas semanas. Eu estava viajando a trabalho pela Amazônia e não tive condições de escrever de lá. (As reportagens deverão ser publicadas no Estadão nas próximas semanas, fiquem de olho.) Agora, de volta ao que interessa .... Imagine só: as plantas não têm olhos, mas elas enxergam a luz melhor do que nós. Assim como um ser humano - até mesmo um cego - consegue sentir o calor de uma lareira sem precisar olhar para o fogo, as plantas conseguem sentir a intensidade de uma fonte de luz e crescer em direção a ela. Percebi isso pela primeira vez no meu aquário, alguns anos atrás, quando notei que as plantas no fundo do tanque, em vez de crescerem retas, sempre cresciam "tortas", na direção do centro, onde a intensidade da luz era maior. Parecia que faziam ioga por entre as pedras e os peixes, só para colocar uma ou duas folhinhas debaixo dos holofotes. Aquelas que não conseguiam se contorcer o suficiente acabavam definhando e morrendo, enquanto as que já estavam no centro do aquário cresciam retinhas até a superfície, verdejantes e felizes. A explicação parece óbvia: as plantas precisam de luz para sobreviver, portanto é natural que elas estiquem suas folhas e seus galhos na direção de onde a luz é mais forte. Mas como é que elas sabem onde a luz está para começo de conversa? Pensei sobre isso também durante minha viagem pela Amazônia. Observando a floresta por horas da janela de um monomotor ou da proa de uma rabeta, me impressionei com a maneira como a vegetação cobria cada centímetro quadrado de terra. Se desse uma pane no avião, só teríamos duas opções: pousar na copa da árvores ou na água. Ou, na melhor das hipóteses, sobre alguma plantação de mandioca dos ribeirinhos, pois essas (felizmente!) são as únicas clareiras visíveis nessa região ainda preservada da Amazônia - o norte do Amazonas, na fronteira com a Colômbia. O fato é que as plantas não desperdiçam luz e estão constantemente batalhando entre si por um lugar ao Sol. O dossel de uma floresta tropical é tão fechado que a luz quase não chega até o solo. Debaixo da copa das grandes árvores que dominam a paisagem, milhões e milhões de jovens plantinhas sedentas de luz aguardam por uma oportunidade de se alimentar também. Quando cai uma árvore e abre-se uma clareira, é um verdadeiro corre-corre vegetal para ver quem consegue crescer mais rápido e ocupar aquela preciosa vaga luminosa no dossel. Se você prestar atenção em qualquer parque ou jardim, provavelmente vai perceber uma situação semelhante. As plantas que estão nos cantos menos iluminados vão sempre fazer o possível para chegar até a luz. Aliás, se você plantar um feijão dentro de uma caixa de sapatos fechada e fizer um furinho no meio da tampa para passar a luz, vai ver que o feijãozinho crescerá na direção do furo, como se enxergasse a luz. Pedi uma explicação científica ao biólogo Marcos Buckeridge, da Universidade de São Paulo, que sabe tudo (ou quase tudo) que se passa dentro de uma planta. Segundo ele, as plantas possuem um pigmento chamado fitocromo, que mede o balanço de radiação vermelha e vermelho extremo na luz, e que direciona o crescimento para um ponto onde os dois comprimentos de onda se equilibram. (no chão da floresta, por exemplo, chega muito mais "vermelhão" do que vermelho, por isso as plantas querem sempre chegar ao dossel, onde a dosagem espectral é mais equilibrada). Ao mesmo tempo, um hormônio chamado auxina, responsável pelo alongamento das células vegetais, faz com que a planta cresça mais do lado que recebe menos luz. Consequentemente, o lado que recebe mais luz se curva (ou tomba) em direção à fonte luminosa. (imagine isso acontecendo com o pé de feijão na caixa de sapato) De certo modo, pode-se dizer que o fitocromo aponta a direção e as auxinas fazem os desdobramentos necessários para que a planta chegue lá. "A planta tem olhos, só que eles estão espalhados por todo o seu corpo", resume Buckeridge.   Pense nisso a próxima vez que ver uma planta fazendo ioga.

25 de novembro de 2008 | 18h04

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