Por um planeta mais frio

Diplomatas de mais de 180 países voltaram a negociar o futuro climático do planeta em Poznan, Polônia

Giovana Girardi, de O Estado de S. Paulo,

04 de dezembro de 2008 | 21h58

Diplomatas de mais de 180 países voltaram a negociar nesta semana, em Poznan (Polônia), o futuro climático do planeta diante de um mundo em condições bem mais críticas do que as de um ano atrás, quando ocorreu a última reunião do clima da Organização das Nações Unidas, mas talvez um pouco mais esperançoso.   Veja tembém:  Meio ambiente especial - biodiversidade  Meio ambiente especial - sustentabilidade  Meio ambiente especial - biomas  Meio ambiente especial - emissões de CO2  Meio ambiente especial - Dez defensores da preservação Acompanhe a reunião de Poznan  Preservação da Amazônia deveria render bilhões de dólares   Veja as reportagens de caderno especial de O Estado de S. Paulo   Santa Catarina é exemplo do que pode ocorrer no futuro Para exorcizar o Procolo de Kyoto Comunidade tradicional quer debater desmate evitado   As emissões de gases de efeito estufa continuaram aumentando, a despeito das medidas que vêm sendo tomadas em vários países. A crise econômica cria incertezas sobre o comprometimento de algumas nações. Por outro lado, está cada vez mais comum ouvir de governantes que não dá mais para descuidar da questão ambiental e que nela estão algumas oportunidades para lidar, até mesmo, com a crise econômica. Sem contar o clima de otimismo pelo fim da gestão George W. Bush, eleita por unanimidade como o maior entrave a um avanço climático.   "Acho que tem havido uma compreensão de que se combate a desigualdade e a pobreza combatendo o aquecimento", afirma o ambientalista Fabio Feldmann, que está na Polônia acompanhando os trabalhos.   A expectativa dos especialistas em negociações climáticas internacionais é que esse espírito permeie a reunião e que, ao final, ela avance as bases para que se chegue a um acordo em 2009, na conferência do clima (COP) em Copenhague. Os diplomatas trabalham no aprimoramento e na apara de arestas do plano de ação acordado na reunião de 2007 em Bali (Indonésia).   Ele propunha para os países desenvolvidos compromissos obrigatórios de redução das emissões comparáveis entre eles - o que deve garantir um nível de esforço mais alto possível de cada um. Já para os países em desenvolvimento, foram sugeridas ações nacionalmente adequadas de redução das emissões no âmbito de políticas de desenvolvimento sustentável apoiadas por financiamento e transferência de tecnologia.   A idéia é que agora, na Polônia, seja possível formular uma "visão compartilhada" sobre quais serão os objetivos globais para a redução das emissões. Esse é um dos cinco blocos de discussão que estão ocorrendo em Poznan (os outros são mitigação, adaptação, transferência de tecnologia e financiamento) e um dos mais visados pelos observadores.   "É ele que vai dar o tom político do que os países industrializados terão como metas e os demais, em termos de compromissos mensuráveis, verificáveis e reportáveis", explica Rubens Born, coordenador da ONG brasileira Vitae Civilis, que acompanha a reunião na Polônia.   Fracasso de Kyoto   Apesar do clima de otimismo, nem todos estão dispostos a fazer cortes profundos em suas emissões justo quando a maior parte dos países ainda vem agindo de modo a só fazê-las crescer. A União Européia, que tradicionalmente assumiu a liderança da questão nos últimos anos, vive uma crise interna. A Polônia, país anfitrião do evento, depende em mais de 90% das termelétricas para produzir energia e reclama que, com a crise econômica, vai ficar muito caro mudar.   Simultaneamente à conferência do clima, a UE está reunida tentando estabelecer metas para a substituição de matrizes dependentes de carvão mineral por fontes renováveis. Além da Polônia, a Itália também está relutante, e a Alemanha, tradicionalmente progressista sobre a questão, tem se mostrado mais cautelosa. "Eles estão em uma posição difícil, porque há muito lobby vindo de ambos os lados (ambientalistas e setor energético) e já não têm mais uma posição tão forte como antigamente", diz Kim Carstensen, líder da iniciativa da Rede WWF sobre clima.   Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, a concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera aumentou mais 0,5% entre 2006 e 2007, atingindo o recorde de 383,1 partes por milhão (ppm). Para evitar que ocorram mudanças climáticas nas próximas décadas, essa concentração tem de se estabilizar em 450 ppm e depois diminuir.   É uma prova de que o Protocolo de Kyoto, que previa uma redução, mesmo que pequena, das emissões até 2012, está fracassando. Desde 1990, ano-base de comparação de Kyoto, houve um aumento de 24% na concentração, em vez da esperada, e acordada, queda de 5,2%. Claro que esse número só valia para os países industrializados, com responsabilidade histórica sobre o problema - e nações em desenvolvimento, como China e Índia, ficaram livres para aumentar suas emissões -, mas o ponto é que há um planeta mais sujo hoje.   A boa notícia é que os Estados Unidos, que até o momento se recusavam a adotar metas de redução e promoveram um aumento de 20% de suas emissões desde 1990, devem mudar com a gestão Barack Obama - mas não neste ano. A esperança é que a delegação Bush, marcada de perto por "olheiros" de Obama, ao menos não atrapalhe. Só que mesmo as promessas do novo presidente ainda são consideradas pouco ambiciosas. Ele sugeriu reduzir as emissões do país ao nível de 1990 em 2020. A Europa fala em 20% a menos.

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