Powell é vaiado durante discurso na Rio+10

O secretário de Estado americano, Colin Powell, protagonizou a mais tumultuada sessão plenária da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, no dia de seu encerramento. Sob um barulhento boicote promovido na platéia por ambientalistas, que vaiavam e assobiavam incessantemente enquanto Powell tentava fazer-se escutar, o representante do presidente George W. Bush prometeu derrubar barreiras protecionistas e ofereceu dinheiro para os países pobres, no lugar de compromissos com metas e prazos, sistematicamente vetados pelos Estados Unidos nessa conferência. ?O presidente Bush e o povo americano têm um compromisso duradouro com o desenvolvimento sustentável?, começou assegurando, para o sarcasmo de delegados e de ativistas. Um grupo segurava um cartaz dizendo ?Os governos do mundo nos traíram?, até ser retirado pelos enérgicos policiais trazidos da sede da ONU em Nova York. ?Sempre entendemos que nosso bem-estar depende do de nossos companheiros habitantes deste planeta Terra.? Diante das vaias insistentes, Powell parou de ler o discurso: ?Muito obrigado, já os ouvi, agora lhes peço que me ouçam.? A ministra do Meio Ambiente da África do Sul, Nkosazana Dlamini-Zuma, que presidia a sessão, ameaçou interrompê-la. O secretário de Estado passou a falar da fome, seca e aids, recordando que uma em cada quatro pessoas sobrevive com até um dólar por dia no mundo. Daí aproveitou para atacar o outro vilão favorito na cúpula, ao lado dos Estados Unidos: ?No Zimbábue, a falta de respeito pelos direitos humanos e pela lei tem exacerbado esses fatores, levando milhões de pessoas à iminência de morrer de fome.? A presença do presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, a essa cúpula, tornou as invasões de terras de brancos pelos negros em seu país, com apoio velado de seu governo, um dos temas paralelos mais ardentes em Johannesburgo. O presidente da Namíbia, Sam Nujoma, e o próprio Mugabe, atacaram diretamente, na sessão plenária, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, responsabilizando a ex-metrópole colonial britânica pelos problemas dos negros, não só na África, mas nas Américas. Blair não respondeu.Alimentos geneticamente modificados Powell tocou em seguida num tema ainda mais sensível: o dos alimentos geneticamente modificados. ?Diante da fome, vários governos na África Meridional têm impedido a distribuição da assistência alimentar dos Estados Unidos aos famintos, rejeitando o milho produzido pela biotecnologia, que tem sido consumido com segurança no mundo todo desde 1995.? Mais vaias. Os transgênicos são um tabu para a maioria dos ambientalistas ? para não dizer todos. Funcionários da Organização para Alimentos e Agricultura (FAO) provocaram comoção durante a cúpula, ao defender a produção de transgênicos na África como forma de aplacar a fome. O secretário de Estado apresentou então a Conta do Desafio do Milênio, iniciativa americana que vincula a assistência a países pobres com a boa governança, ou seja, com a condição de que os beneficiários sejam ?governados de modo sábio e justo?. Segundo ele, o presidente Bush está tentando no Congresso americano o aumento dos recursos para a assistência ao desenvolvimento, de US$ 10 bilhões anuais para US$ 15 bilhões, dentro de três anos. Entre outros programas, ele citou a construção de 90 mil casas nos próximos cinco anos na África do Sul. O aumento dos recursos é um esforço para cumprir o compromisso, firmado pelos países industrializados na Rio-92, reafirmado na cúpula de Monterrey, em março, e repetido agora em Johannesburgo, de destinar 0,7% do Produto Interno Bruto à assistência aos países em desenvolvimento. Mas os pobres têm que fazer sua parte, enfatizou: ?Só ajuda oficial para o desenvolvimento não é suficiente. Os países também devem ser capazes de atrair o comércio e o investimento, que respondem por 80% do dinheiro disponível para o desenvolvimento.?O comércio é o motor do desenvolvimento Citando uma frase de Bush, segundo a qual ?o comércio é o motor do desenvolvimento?, Powell disse que os Estados Unidos ?anunciaram propostas de derrubar as barreiras ao comércio global de produtos agrícolas?. ?Estamos comprometidos não só com a retórica ou com objetivos abstratos, mas com um programa de US$ 1 bilhão para desenvolver tecnologias destinadas a reduzir as emissões de gases do efeito estufa?, afirmou Powell, numa tentativa de compensar a recusa americana de ratificar o Protocolo de Kyoto, que prevê a redução dessas emissões aos patamares de 1990. Powell tentou sensibilizar a audiência apelando para sua ascendência. ?Meus ancestrais africanos teriam entendido o que nos trouxe a Johannesburgo?, filosofou. ?Eles o teriam chamado ?ubuntu? (nome dado a um parque de exposições da cúpula), a idéia de que estamos todos juntos neste planeta. Quando um de nós sente fome, todos nós sofremos.? E concluiu: ?Temos planos para acabar com o desespero e oferecer esperança. Agora é hora de colocar esses planos em ação e expandir o círculo do desenvolvimento para todas as criaturas de Deus.? Os aplausos de alguns delegados se confundiram com as vaias da maioria. Veja mais notícias e a galeria de fotos

Agencia Estado,

04 de setembro de 2002 | 11h22

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