Preguiças e humanos são contemporâneos

Agora não há mais dúvidas. Sereshumanos e preguiças terrícolas gigantes perambularam peloscerrados brasileiros e conviveram há cerca 10 mil anos. A prova,que encerra um debate que já durava um século e meio, veio doresultado de um exame de Carbono 14, feito num minúsculo pedaçode osso fossilizado, com cerca 2 centímetros e menos de 3gramas.O material foi extraído da costela de um fóssil depreguiça da espécie Catonyx cuvieri, encontrado na região deLagoa Santa, em Minas. É o mesmo local onde também foidescoberto o crânio do ser humano "brasileiro" mais antigo, afamosa Luzia, de 11.500 anos. Daí a conclusão de que sereshumanos e preguiças gigantes foram contemporâneos.AnáliseNum projeto de pesquisa financiado pela Fundação deAmparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pesquisadoresda Universidade São Paulo (USP) e da Universidade Federal deMinas Gerais (UFMG) enviaram o pedacinho de osso para oLaboratório Beta Analytic, nos EUA, onde foi feita a análise."Eles isolaram o colágeno, uma proteína que estrutura oosso, que permite uma datação mais precisa", explica opaleontólogo Cástor Cartelle, do Departamento de Geologia daUFMG, participante do projeto. "O resultado revelou que aqueleosso tem 9.900 anos, com margem de erro de 40 anos para mais oupara menos."Hipótese de LundA datação confirma a hipótese do cientista dinamarquês Peter Lund (1801-1880), levantada em meados do século 19. "Eledefendia a tese de que espécies de mamíferos gigantes, amegafauna, do período geológico conhecido como Pleistoceno (de 18 milhão a 11 mil anos atrás) conviveram com seres humanos, naregião de Lagoa Santa, há cerca 10 ou 11 mil anos", explica. Éo caso das 13 espécies de preguiças terrícolas identificadas atéagora. Algumas delas, podiam atingir até 5 toneladas.Considerado o pai da paleontologia e daarqueologia brasileiras, Lund mudou-se para a região de LagoaSanta, em 1825, onde viveu até morrer. Nesse período, descobriumais de 12 mil fósseis, com os quais ajudou a escrever ahistória do período Pleistoceno brasileiro, numa época em que aciência quase nada sabia a respeito. Ele também desenterrouossadas fossilizados do chamado "homem de Lagoa Santa", quepuseram em xeque teorias da paleontologia da época.ContestaçõesSuas descobertas e conclusões sofreram, porém, muitascontestações. Entre os defensores de Lund está Cartelle,considerado um de seus sucessores. Ele acredita que a extinçãodas preguiças ocorreu há 10 mil anos. O resultado de agoracomprova a teoria do pesquisador.Segundo Cartelle, a idade doosso, que pertenceu a uma espécie relativamente pequena, queatingia cerca de 300 quilos, não é a única evidência de quehumanos e preguiças - bichos peludos que pastavam em vez deandar em árvores como as suas parentes atuais - conviveram namesma região.Cara a cara"Já foram encontrados no local ossos queapresentam marcas de manipulação humana. Isso quer dizer queseres humanos e preguiças gigantes estiveram cara a cara." Atéhoje, sabia-se quando esses animais haviam surgido na face daTerra, mais precisamente na América do Sul - há 50 milhões deanos -, mas não quando tinham desaparecido e nem se haviamconvivido com nossos antepassados.Agora, sabe-se. E as pesquisas não vão parar. O estudofaz parte de um megaprojeto sobre a origem do homem americano,iniciado em 2000, com financiamento da Fapesp. O próximo passoserá verificar as idades de outros fósseis colhidos em LagoaSanta e no sul da Bahia."Vamos ter mais provas de que humanose a megafauna do Pleistoceno foram contemporâneos", dizCartelle. "É uma forma de conhecer um pouco mais da nossahistória."

Agencia Estado,

14 de julho de 2002 | 23h07

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