Ricardo Matsukawa/SDE - 11/02/2022
Ricardo Matsukawa/SDE - 11/02/2022

Premiação reconhece pioneira da gramática, que ainda dá aulas aos 90 anos, e jovem pesquisadora

Prêmio Ester Sabino foi entregue à linguista Maria Helena de Moura Neves e à engenheira Mayara Condé Rocha Murça, de 33 anos

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2022 | 18h12

Uma pioneira e um jovem nome da pesquisa no País receberam na manhã desta sexta-feira, 11, o Prêmio Ester Sabino, voltado a reconhecer cientistas que atuam no Estado de São Paulo e entregue na data em que é celebrado o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. As premiadas são a linguista Maria Helena de Moura Neves, de 90 anos, e a engenheira Mayara Condé Rocha Murça, de 33 anos.

O prêmio leva o nome de Ester Sabino, médica, imunologista e professora da USP, com trabalho de reconhecimento internacional e que se destacou no noticiário da pandemia ao liderar a equipe (composta de outras pesquisadoras) que sequenciou o genoma do novo coronavírus no País. “Um prêmio que comemora a ciência e as mulheres da ciência é muito importante, (eu) me sinto muito honrada”, declarou.

A premiação foi dividida em “pesquisadora sênior” (acima de 35 anos e com carreira nacional e internacional consolidada) e “jovem pesquisadora”, para as quais as concorrentes foram indicadas e, depois, tiveram o currículo científico avaliada por uma banca especializada. Na última etapa, as três finalistas de cada categoria concorreram em uma votação popular, que atraiu mais de 14,6 mil votos, de acordo com a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, realizadora do prêmio.

Uma das premiadas, Maria Helena foi uma das primeiras mulheres a escrever uma gramática no País. No evento, relembrou a trajetória iniciada em uma casa cheia de livros, com pais professores, e as décadas de pesquisa acadêmica que perpassam duas graduações em Letras (em Português-Grego e Alemão), mestrado, doutorado e 50 anos de docência, sempre guiada pela pergunta do porquê a humanidade começou a fazer gramáticas.

Ela destacou a importância do reconhecimento para a área em que atua, que ainda é visto erroneamente como algo dogmático e alheio à ciência. Na votação popular, recebeu 53% dos votos. Hoje, é professora emérita e voluntária na Pós-Graduação da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara, onde coordena um grupo de pesquisa de Gramática, e também leciona na pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

É autora, coautora e organizadora de mais de 70 livros de linguística, gramática e dicionários, além de ter sido professora visitante em universidades na Alemanha e Holanda. Sua contribuição para a área no País já foi tema de pesquisa acadêmica. Além disso, fora da academia, também recebeu diferentes reconhecimentos, como o título de “patrimônio cultural araraquarense”, em 2019, e a indicação ao Prêmio Jabuti, pelo "Guia de uso do português", de 2004.

Já Mayara destacou a referência de Ester Sabino e outras pesquisadoras para as jovens pesquisadoras. Formada em Engenharia Civil-Aeronáutica e mestrado e doutorado (o segundo pelo MIT) na área, é professora no Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA), onde também coordena o Laboratório de Gerenciamento de Tráfego Aéreo. Na votação popular, recebeu 44% dos votos. “O prêmio reconhece o trabalho de excelência que mulheres vem desenvolvendo”, declarou, cujos estudos são voltados em buscar alternativas mais sustentáveis para o tráfego aéreo, dentre outros temas.

“É um momento muito especial estar aqui, representando mulheres em áreas que historicamente tem uma baixa participação feminina”, comentou à reportagem. “É importante ter referências para despertar o interesse (nas próximas gerações). Essas cientistas (consolidadas) são uma referência e todas nós (mais jovens) somos referências para meninas.”

Na categoria sênior, as demais finalistas foram as professoras Alicia Juliana Kowaltowski, do Instituto de Química da USP (pesquisadora de metabolismo energético), e Giselda Durigan, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais (Ipa), com estudos voltados à conservação e restauração ecológica. Entre as jovens cientistas, as finalistas foram Camila Meirelles de Souza Silva, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, que estuda Imunofarmacologia), e Dayana Aparecida Marques de Oliveira Cruz, professora do Instituto Federal de São Paulo de Registro, com trabalhos voltados à Geografia Humana.

Secretária de Desenvolvimento Econômico, Patricia Ellen disse ao Estadão que há expectativa para ampliar a premiação nas próximas edições, a fim de contemplar diferentes áreas de atuação. Além disso, a pasta busca firmar parcerias para que as vencedoras também recebam um valor em dinheiro para investir nas pesquisas que realizam. Segundo ela, o prêmio recebeu dezenas de indicações.

“Escolhemos a Ester Sabino por ser uma grande guerreira durante a pandemia, com reconhecimento internacional, e líder de um grupo de mulheres cientistas que sequenciou o coronavírus”, explicou. “(O prêmio) É simbólico para o momento em que estamos vivendo (pandemia) e o papel que ela teve.”

Já Ester ressaltou a importância das mulheres terem espaço e acreditarem no próprio trabalho para poder crescer na área. Chegou a citar uma história da infância, de quando começou a errar propositalmente em atividades escolares porque havia ganhado prêmios de melhor aluna em anos seguidos. “Não me sentia naquele lugar (de destaque).”

Ao Estadão, afirmou esperar que o prêmio seja um incentivo para que as mulheres busquem subir na carreira e não hesitem em buscar novos desafios após chegar à docência e concluir o doutorado. Por trabalhar com pesquisadoras, perceber que as novas gerações estão mais fortalecidas para atuar na ciência.

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