Prêmio da ONU põe o tráfico de animais na ordem do dia

Em apenas uma semana, o anúncio do Prêmio Sasakawa de Meio Ambiente, da Organização das Nações Unidas (ONU), rendeu a Dener Giovanini, da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), três convites para palestras internacionais - na Índia, Estados Unidos e Suíça. E transformou uma pequena reunião, na Escola de Governança de Harvard, em Boston (EUA), previamente agendada, em um evento para 280 pessoas, que o ovacionaram de pé. Aos 35 anos e após 4 anos de trabalho dedicados a qualificar fiscais e policiais para o combate ao tráfico, além de reunir e divulgar informações sobre este tipo de crime ambiental, Dener Giovanini divide o Prêmio Sasakawa de 2003 com o chinês Xie Zhenhua, vice presidente do Conselho Chinês para a Cooperação Internacional sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CCICED) e ministro da Administração Estatal de Proteção Ambiental da China (SEPA). Ambos recebem o prêmio das mãos do secretário geral da ONU, Kofi Annan, em Nova Iorque, no próximo dia 19 de novembro. De acordo com o levantamento realizado pela Renctas, em 2001, o tráfico tira dos ecossistemas brasileiros cerca de 12 milhões de espécimes e movimenta algo em torno de US$ 1,5 bilhão, por ano. Desde que a Renctas começou a atuar, aumentaram significativamente as apreensões e o índice de sobrevivência dos animais apreendidos. Mas as pressões do crime organizado, que trabalha sobretudo com as espécies ameaçadas de extinção, é grande. Não faltam ameaças de morte, mas ainda há uma grande carência de políticas pública e de um combate efetivo à impunidade. Ao retornar de Boston, neste sábado, Giovanini concedeu a seguinte entrevista à Agência Estado.AE ? A repentina visibilidade, que o prêmio lhe confere, pode de alguma forma ajudar a combater o tráfico de animais silvestres?DG ? Aqui no Brasil não se conhece muito o prêmio, mas lá fora dão um valor muito grande. Quando cheguei em Boston, fiquei espantado com a recepção que tive. Minha palestra, prevista para 50 pessoas, tinha 280. Eles transformaram a Renctas num estudo de caso, da Escola de Governança de Harvard, vão publicar em inglês, português e espanhol e distribuir para outras organizações não governamentais, incluindo uma análise deles, quanto aos pontos fracos e fortes de nossa atuação. E já começaram a surgir convites para palestras, na Índia, EUA e Suíça...AE ? O que te levou a criar uma entidade para trabalhar especificamente com o tráfico de animais?DG - A falta de informação no país. Em 1998, enquanto secretário de meio ambiente de Três Rios, no Rio de Janeiro, verifiquei que a polícia rodoviária apreendia os animais e não sabia o que fazer. Uma vez apreenderam 800 pássaros e trouxeram para minha secretaria. Rodei uns 400 km atrás de um local para levar os animais, o Ibama não sabia onde por, a secretaria estadual também não, o zôo não queria. Notei que isso era constante. O problema era enorme e a falta de informação tão grande quanto o problema.AE ? E qual foi estratégia para atacar a questão?DG ? Comecei a ler, pesquisar, levantar informações e achei importante disponibilizar tudo isso, então a primeira idéia foi criar uma rede na internet. A Renctas era para ser só um banco de dados, local, regional no máximo. Mas no processo de pesquisa, a demanda foi tão grande - as pessoas ligavam fazendo denúncias, solicitando informações ? que, quando vi, já estava no Brasil todo e até fora do país.AE ? Você considera que parte das deficiências identificadas 4 anos atrás foi suprida?DG ? Acho que sim, fizemos muitos treinamentos, muitos cursos e workshops e o papel da mídia foi extremamente importante. Porque era o único espaço com o qual podíamos contar, já que não tínhamos recursos para fazer campanha publicitária. Conseguimos colocar o tráfico de animais na pauta do dia, aumentou significativamente a quantidade de ações, a fiscalização, o tratamento adequado dos animais apreendidos, reduziu o tráfico descarado, as vendas pela internet. Motivamos uma CPI e fizemos uma audiência pública, em Brasília. O Governo começou a tomar ciência e se mobilizar. AE- Você recebeu algum tipo de apoio oficial?DG - Eu credito muito o sucesso da Renctas à postura do então ministro Sarney Filho. Na primeira vez em que estive com ele, no início de 2000 - eu não o conhecia, pedi uma audiência por fax e ele me atendeu ? ele me deu carta branca para fazer o levantamento e colocou o Ibama à disposição para ajudar. Disse a ele, que poderíamos não ter boas notícias e ele respondeu que queria conhecer a realidade, fosse qual fosse, e se fosse ruim teríamos que mudar. Isso é difícil ver num governante, essa relação de franqueza entre sociedade e poder público faz as pessoas se sentirem como colaboradores.AE ? No atual governo, continua a colaboração?DG ? Não. O que vemos agora é um retrocesso. Até hoje não consegui uma audiência, as coisas estão paralisadas e isso nos preocupa porque há brasileiros fazendo coisas bacanas, surgindo como lideranças internacionais. O tráfico de animais é um problema que atinge diversos países, mas não existe uma rede de fato atenta. Mas não temos interlocutores neste novo governo, a ministra está perdendo o trem da História, perdendo a oportunidade de mostrar que realmente tem algo a acrescentar ao país, ao invés de ficar na defensiva. A ministra disse que não queria fazer um ministério de jardinagem, pois eu, atualmente, não a contrataria nem para ser jardineira na minha casa.AE ? Quais são os desafios atuais, que teriam de ser enfrentados?DG - Agora temos 2 grandes desafios. O primeiro é nos concentrarmos na conscientização ambiental para diminuir a demanda por animais silvestres, que vem da sociedade. E o segundo, para a parte da sociedade que não é sensível à conscientização, mudar a legislação. Hoje compensa traficar, porque num transporte se fatura 10 a 20 mil reais e, se o motorista for preso, só paga 6 dúzias de cestas básicas. Isso estimula o tráfico. A impunidade estimula pessoas como o alemão Marc Baungarten, que já foi preso 5 vezes e não aconteceu nada. Ele paga 3 cestas básicas e continua vendendo cada sapinho da Amazônia por 500 a 600 dólares ou uma aranha por 1.500 dólares. O Brasil segue sendo uma prateleira com mercadorias gratuitas: quem vem entra, pega e não acontece nada. Para estas pessoas só resolve cadeia e penas pecuniárias altas, mas que sejam de fato pagas.AE ? E a colaboração que vocês tinham com o Ibama, não tem ajudado a reduzir esta impunidade?DG ? O Ibama também está absolutamente parado, não fomos procurados e não fomos recebidos. Pretendo fazer um discurso forte ao receber o prêmio. É o momento de alertar para isso e dizer um basta. Não vamos fingir que está tudo bem, porque não está. Continuamos com bom relacionamento com o nível técnico do Ibama e com as polícias rodoviária e federal. Mas falta direcionamento político ao Ibama, faltam meios. Se dependesse dos técnicos, o Ibama seria muito melhor, mas falta um norte.AE ? Com sua atuação no combate ao crime organizado e toda esta exposição na mídia não surgiram ameaças?DG ? Quando a Renctas ainda estava no Rio comecei a sofrer pressões. Não só cartas e telefonemas com ameaças de morte, mas um dia, saindo de um hotel, duas pessoas que estavam paradas na porta me mostraram uma arma e avisaram que se eu continuasse fazendo o que estava fazendo, ia ter vida curta. Durante algum tempo contratava segurança particulares para andar no Rio de Janeiro. Tomo cuidado, não divulgo os endereços onde estou, faço reservas em 2 ou 3 hotéis, quando viajo. Já faz parte da rotina. Desde que mudamos a Renctas para Brasília está mais tranqüilo, mas não descuido. E a exposição na mídia não atrapalha, na verdade, ajuda a afastar as ameaças.

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