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Presa e predador

Dinâmica entre as espécies não somente é estável como resiliente – supera as rupturas

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 05h00

O guepardo arranca em alta velocidade. A gazela corre pela vida. Se ela conseguir ficar à frente por 30 segundos escapa, pois o guepardo, que corre mais rápido, tem pouca resistência. Senão, vira almoço. Durante milhões de anos, guepardos e gazelas foram moldados pela seleção natural. Os guepardos e gazelas mais rápidos foram selecionados e aos poucos a velocidade das duas espécies foi aumentando, criando essa corrida armamentista, onde a espécie que não acompanhar o aumento de velocidade e agilidade da outra pode ser extinta.

Mas o equilíbrio entre presa e predador pode ocorrer de outra maneira. O sucesso do predador leva a um aumento de sua população, que por sua vez causa uma diminuição da quantidade de presas disponíveis. A caça fica difícil e parte dos predadores morre de fome. A diminuição de predadores permite que a caça se reproduza com maior facilidade e sua população aumenta. Quando a presa fica novamente abundante é a vez de a população de predadores aumentar e assim o ciclo se repete ao longo do tempo. Em 1926, o matemático Vito Volterra publicou um modelo que demonstrava que esse ciclo poderia se perpetuar indefinidamente e, portanto, poderia ser encontrado na natureza. O modelo é lindo, mas demonstrar que esse ciclo realmente ocorre na natureza é difícil.

Em 1973, pesquisadores coletaram os dados de quantas peles de uma espécie de raposa e de sua presa, uma espécie de lebre, eram vendidas pelos caçadores canadenses para a Hudson Bay Company. Os dados incluíam todas as vendas das peles entre 1845 e 1935. Esses dados mostram que a quantidade de lebres mortas aumentava e diminuía de forma cíclica a cada 9 anos. E mais: a quantidade de raposas capturadas e mortas também flutuava com a mesma periodicidade. Entretanto o pico da quantidade de predadores (raposas) capturadas estava deslocado em um ano em relação ao pico das presas (lebres). Eles conseguiram acompanhar o processo por 10 ciclos, o que demonstrava que provavelmente esse ciclo deveria existir de fato. Dados semelhantes foram obtidos com peixes. Entretanto, quando os cientistas tentavam repetir o fenômeno em condições controladas de laboratório, o fracasso se repetia.

A novidade é que agora os cientistas conseguiram criar em laboratório um ambiente em que uma presa e seu predador convivem e o número de presas e predadores oscila por longos períodos de tempo. Usaram um aquário de água doce totalmente fechado em que foram inoculadas algas unicelulares capazes de fotossíntese. Essas algas (M. minutum ou C. vulgari) servem de alimento para um rotífero (B. calyciflorus). No meio ambiente esses rotíferos, que fazem parte do zoo plâncton, devoram as algas que fazem parte do fito plâncton de rios e lagos. Os cientistas foram capazes de observar ciclos de aumento e diminuição dessas duas populações por até um ano. Durante esse tempo, mais de 300 gerações de predadores se sucederam no aquário. Durante esse tempo, mais de 50 ciclos de aumento e diminuição de cada população foram observados. Essas oscilações se comportavam como as preditas pelos modelos matemáticos. 

Mas o mais interessante é que durante esses experimentos muitas vezes o ciclo perdia a sincronia e uma das espécies parecia que ia se extinguir. Mas, em todos os casos, sem nenhuma interferência externa, o ciclo se restabelecia e voltava a ocorrer como antes.

Esse experimento demonstra que as interações cíclicas entre presa e predador podem se manter por longos períodos e a dinâmica entre as espécies não somente é estável como resiliente, pois volta ao seu estado inicial de equilíbrio mesmo quando ocorrem rupturas. Essa demonstração é importante pois é provável que esses ciclos entre presa e predador façam parte da evolução da interação entre espécies que mantém uma relação de presa e predador. 

De certa maneira você pode imaginar que o ser humano é hoje o grande predador do planeta. Algum dia, o predador ficará sem presa e sua população pode ser reduzida. Claro que no nosso caso o sistema é bem mais complexo, mas esse modelo ajuda a refletir sobre nosso papel.

MAIS INFORMAÇÕES: LONG-TERM CYCLIC PERSISTENCE IN AN EXPERIMENTAL PREDATOR–PREY SYSTEM. NATURE HTTPS://DOI.ORG/10.1038/S41586-019-1857-0 (2019)

*É BIÓLOGO

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