Primeira fábrica do País exclusiva de mosquito da dengue transgênico é inaugurada

Tecnologia modifica geneticamente 'Aedes aegypti' para que não deixe descendentes e tem objetivo de reduzir incidência da doença

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

29 Julho 2014 | 14h07

Atualizada às 20h38

CAMPINAS - As prefeituras de Piracicaba e Campinas estudam utilizar um mosquito geneticamente modificado como arma adicional no combate à dengue. Nesta terça-feira, 29, a empresa britânica responsável pela tecnologia inaugurou sua primeira fábrica no Brasil. Instalada em Campinas, a unidade produz exemplares do Aedes aegypti que tiveram seu DNA alterado para não deixar descendentes, estratégia que reduziria a população do mosquito na natureza e diminuiria a incidência da doença.
O método já foi liberado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em abril, mas a comercialização dos insetos transgênicos ainda precisa ser autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Testes feitos na Bahia apontam redução de mais de 90% na população de Aedes aegypti nos locais em que os mosquitos transgênicos foram utilizados.

Como ainda aguarda a liberação para a comercialização, a empresa britânica Oxitec, criadora da tecnologia, busca parceiros governamentais para o uso dos mosquitos em novas pesquisas. “Já tivemos reuniões com cerca de 20 municípios para apresentar a técnica”, diz Glen Slade, diretor global de desenvolvimento de negócios da Oxitec do Brasil. “É bem possível que façamos convênios de pesquisa com alguns deles nos próximos meses, até em cidades do Estado de São Paulo.”
Prática. Campinas e Piracicaba são duas das prefeituras que já foram apresentadas à tecnologia e que estudam utilizá-la de forma experimental.
Segundo Sebastião Amaral Campos, coordenador do Plano Municipal de Combate à Dengue da Secretaria da Saúde de Piracicaba, um projeto já foi montado pelos técnicos da pasta, mas ainda aguarda a aprovação do prefeito Gabriel Ferrato (PSDB). “É uma tecnologia inovadora e achamos que vale a pena ser testada”, disse Campos, presente na inauguração da fábrica. O plano da secretaria é liberar os mosquitos transgênicos em uma região com 5 mil habitantes. A cidade tem 385 mil moradores.
A prefeitura de Campinas também diz estar estudando a eficácia e uso da técnica. A gestão afirmou, porém, que, caso utilizados, os mosquitos transgênicos seriam uma ferramenta complementar e não substituiriam as ações já realizadas.
Custo. A estimativa da Oxitec é que o serviço custe, para uma cidade de 50 mil habitantes, de R$ 2 milhões a R$ 5 milhões no primeiro ano e R$ 1 milhão nos anos seguintes. A fábrica inaugurada nesta terça-feira pode produzir 2 milhões de mosquitos machos adultos por semana (clique aqui para ver vídeo).
Os mosquitos transgênicos têm um gene extra responsável por liberar uma proteína que impede que as larvas do inseto cheguem à fase adulta. A estratégia consiste em soltar os machos transgênicos na natureza para que eles copulem com as fêmeas selvagens, sem que haja descendentes. Só machos são soltos porque eles não picam e não transmitem a doença.
Embora já tenha sido liberado pela CTNBio, o uso dos mosquitos é questionado por organizações da sociedade civil que dizem que os testes não são conclusivos. Um dos argumentos usados pelas entidades, entre elas a associação AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia, é que o município baiano de Jacobina, onde o mosquito foi testado no ano passado, vive epidemia de dengue neste ano.
Segundo a Oxitec, Jacobina teve só 5% do território tratado com o mosquito. A empresa diz que apresentou à CTNBio dossiê de 900 páginas com as conclusões das pesquisas.

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