Primeiro bebê de proveta completa 25 anos

Louise Brown não ganhou um Prêmio Nobel nem descobriu a cura de nenhuma doença. Seu nome, entretanto, é um símbolo da medicina moderna. E seu aniversário, nesta sexta-feira, motivo de alegria para milhões de homens e mulheres ao redor do mundo. Seu grande mérito foi simplesmente ter nascido, a partir de um óvulo fertilizado em laboratório, 25 anos atrás.Perfeitamente saudável, trabalhando como carteira e de casamento marcado, Louise foi o primeiro bebê de proveta do mundo; o primeiro ser humano concebido fora do útero, em cima de uma placa de vidro. Inicialmente, a fertilização in vitro (FIV) foi vista por muitos como uma aberração moral e um atentado contra a vida. Quem poderia garantir que essas crianças seriam normais? Para o Vaticano, o nascimento de Louise era ?um evento que poderá ter graves conseqüências para a humanidade?. Robert Edwards e Patrick Steptoe, entretanto, não se intimidaram. Por mais de três anos, os dois pesquisadores britânicos travaram uma batalha científica para reproduzir no laboratório o que a natureza havia desenvolvido ao longo de milhões de anos de evolução. Foram necessárias centenas de testes, na base da tentativa e erro, até se chegar a Louise. ?Foi uma realização fantástica, que envolvia muito mais do que infertilidade?, disse Edwards, em entrevista ao Times. ?Envolvia temas como células-tronco e a ética da concepção humana. Eu queria saber exatamente quem estava no comando, se era Deus ou os cientistas no laboratório.? A conclusão? ?Éramos nós?, respondeu o pesquisador, triunfante.Apesar de todas as contestações, o trabalho foi todo realizado com a aprovação dos comitês de ética britânicos. Até o desenvolvimento da FIV, mulheres com obstrução das trompas ? como era o caso da mãe de Louise ? não podiam ter filhos. Eram pacientes com ovário e óvulos perfeitos, mas que, por uma razão mecânica, não chegavam até o espermatozóide. A solução foi coletar os óvulos e fazer a fertilização no laboratório, para depois introduzir um embrião já formado no útero. ?A ciência, na verdade, não inventou nada, só copiou a natureza?, diz o médico Agnaldo Cedenho, chefe do Setor de Reprodução Humana da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).No quarto de século que se seguiu, mais de um milhão de crianças foram concebidas por fertilização in vitro. A tecnologia evolui rapidamente. A década de 80, lembra Cedenho, foi voltada quase que inteiramente para o tratamento da infertilidade feminina. Surgiram o ultra-som e os medicamentos para estimulação hormonal dos ovários. Na década de 90, a atenção voltou-se para os homens e, em 1992, foi desenvolvida a injeção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI), a segunda grande revolução da medicina reprodutiva. A técnica consiste em injetar um único espermatozóide diretamente dentro do óvulo, ideal para homens com esperma de baixa qualidade, que não consegue penetrar na célula feminina por conta própria.A taxa de sucesso, que era de 5% após o nascimento de Louise, hoje chega a 50%, tanto para a FIV quanto para a ICSI. ?A única diferença é a maneira pela qual o espermatozóide penetra no óvulo?, explica o médico Selmo Geber, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida. Ou seja, de cada 10 embriões transferidos, 5 vão produzir um bebê. Na concepção natural, para se ter uma idéia, as chances da mulher engravidar é de 15% a 18%. ?Acho que podemos chegar a 80% sem muita demora?, prevê Geber. Para isso, entretanto, é preciso conhecer melhor o processo de interação entre embrião e útero ? talvez a maior lacuna da medicina reprodutiva atualmente. ?Esse é o nosso ponto cego, onde a natureza toma conta.??Não importa quão fantástico seja um laboratório, ele nunca será tão fantástico quanto o útero da mulher?, diz o médico Roger Abdelmassih, especialista em reprodução humana. Dentro das técnicas atuais, o grande desafio, segundo ele, é chegar a um índice que permita transferir apenas um embrião para cada paciente. O normal hoje é transferir três embriões, apesar de a legislação permitir até quatro. ?Temos uma tecnologia fantástica, mas ainda há muito o que avançar.?

Agencia Estado,

24 de julho de 2003 | 23h57

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