Primeiro satélite brasileiro faz dez anos em órbita

O primeiro satélite construído no Brasil, o SCD1, já está em órbita há 10 anos. Lançado depois de um período de críticas, por integrar "tecnologias obsoletas", o SCD1 entrou em órbita no dia 9 de fevereiro de 1993. Um foguete Pégasus, embarca do no avião bombardeiro B-52 da Nasa, levou o satélite de coleta e transmissão de dados a 750 km, de onde ele passou a emitir sinais, captados, alguns minutos depois, na estação receptora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em Cuiabá, no Mato Grosso.Tinha vida útil projetada de um ano, mas ainda está operacional, apesar de algumas funções degradadas. Hoje integra, junto com dois outros satélites nacionais, o sistema brasileiro de coleta de dados de plataformas, usados nas previsões diárias do tempo, clima, monitoramento do nível de água de rios e represas, estudo de correntes oceânicas e de marés, química da atmosfera e planejamento agrícola."O SCD1 foi o primeiro passo para a criação de uma rede, que hoje atende a 500 plataformas, com satisfação total dos usuários e expectativa de aumento para 800 plataformas, em dois anos. Sem dúvida, trata-se de um satélite que superou todas as expectativas, com sua incrível sobrevida", comenta Múcio Dias, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB). Há dez anos, no dia 10 de fevereiro de 1993, a pequena comitiva de brasileiros, que comandou o lançamento do primeiro satélite brasileiro, da base áerea de Wallops Island, em Virgínia, EUA, foi comemorar a órbita perfeita e o início do envio de dados, junto com alguns representantes da Nasa. Ao cumprimentar o então diretor geral do Inpe, Márcio Nogueira Barbosa, um dos diretores da Nasa perguntou, num tom entre a brincadeira e o desdém, se o satélite brasileiro ainda estava funcionando. Apenas 24 horas haviam se passado desde o lançamento e o Brasil já falava nos próximos satélites e na criação de uma agência espacial, enquanto alguns conceituados representantes do setor espacial seguiam duvidando do funcionamento do SCD1. Pois os outro s satélites estão em órbita, a Agência Espacial Brasileira foi criada um ano mais tarde e o SCD1 superou até as expectativas de quem o construiu: continua girando a 27.000 km por hora, a 750km da superfície terrestre, captando e transmitindo dados a cada 1 hora e 40 minutos, tempo necessário para completar uma volta na Terra. Sistema confiávelEmbora o objetivo principal de sua construção fosse dar oportunidade aos pesquisadores brasileiros de desenvolver tecnologias espaciais, o SCD1 chegou a transmitir, sozinho, os dados de 297 plataformas instaladas em diversos pontos do Brasil e 4 na Bolívia. Para economizar a bateria do satélite de 115kg e multiplicar sua vida útil, os técnicos do Inpe ligavam alguns dos sub-sistemas quando ele se aproximava do alcance da antena de recepção de Cuiabá, no Mato Grosso, desligando quandosaía do alcance da antena de Alcântara, no Maranhão. A primeira tentativa de substituição ocorreu só em 2 de novembro de 1997, quando o SCD2A foi acoplado ao Veículo Lançador de Satélites, VLS. Mas ele explodiu junto com o foguete, 65 segundos após o lançamento, a 3.230 metros de altura. O VLS apresentou um problema na ignição de um dos motores e saiu de sua trajetória. Por isso teve de ser destruído, procedimento adotado em todas as bases espaciais, caso haja risco de atingir áreas povoadas.Quase um ano depois, no dia 22 de outubro de 1998, o SCD2 foi lançado do mesmo modo que o SCD1, de um foguete Pégasus embarcado num B-52. Com vida útil estimada em 2 anos, o SCD2 também tem uma sobrevida invejável e se mantém operacional até hoje. E, em 14 de outubro de 1999, o foguete chinês Longa Marcha-4 colocou em órbita o terceiro satélite brasileiro ? CBERS1 - que além de possuir câmeras de sensoriamento remoto, também leva um transponder de coleta e transmissão dedados, igual ao dos SCDs.Operando conjuntamente os três satélites, o Brasil passou a ter um sistema confiável, que hoje está disponível para 103 usuários, diversas vezes ao dia. Os dois maiores, dentre tais usuários, são a Agência Nacional de Água (ANA) e o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). "Lidamos com um número de mensagens diárias maior do que o gigante do setor, que é o sistema Argos, do Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES), da França", conta Carlos Santana, do Inpe, engenheiro responsável pela integração dos primeiros satélites brasileiros.Como os Argos têm uma órbita polar, a coleta e transmissão de dados de plataformas localizadas na faixa tropical só é feita 2 vezes por dia, enquanto o sistema brasileiro oferece 14 passagens por dia. O Argos, inclusive, utiliza a rede brasileira para captar os dados de mil plataformas de pesca do Peru, que lhe são retransmitidos via FTP (Protocolo de Transferência de Arquivos) a partir da estação do Inpe, de Cuiabá.Novos mercadosO próximo satélite a entrar em órbita - o CBERS2 - também deve levar a bordo um transponder de coleta e transmissão de dados. Algumas de suas peças apresentaram problemas, na fase de testes, mas os reparos já foram feitos e o CBERS2 está pronto para ser integrado ao foguete Longa Marcha, na China, com lançamento previsto para agosto ou setembro deste ano. "O Brasil tem um domínio completo dos sub-sistemas estruturais, de suprimento de energia, de eletrônica de bordo e de coleta e transmissão de dados", reitera Múcio Dias. "Agora é preciso dominar a tecnologia de câmeras de sensoriamento remoto de resolução média, de pelo menos 20 metros, para abrir espaço no mercado internacional".De acordo com o presidente da AEB, a expectativa é de chegar lá até 2006 quando deve ocorrer o lançamento do CBERS3. Ele acredita, que também é preciso constituir uma empresa nacional integradora de satélites, uma função ainda desempenhada pelo Inpe, embora já existam pelo menos duas dezenas de fornecedores - indústrias nacionais - capacitados para produzir as peças com alto nível tecnológico exigidas no setor espacial. "É o próximo desafio: consolidar uma empresa privada integradora de satélite para ter condição de entrar com mais agressividade no mercado internacional", diz."Pode ser até uma empresa resultante da fusão entre vários fornecedores, ou de alguns deles com a Embraer, o importante é que se consiga trabalhar com sistemas completos e não apenas peças ou sub-sistemas".

Agencia Estado,

10 de fevereiro de 2003 | 16h42

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