Programa Biota é lançado no Pará

Em um ano, o Pará deverá ter uma lista consolidada e atualizada de espécies ameaçadas de extinção e uma base de dados sobre a biodiversidade, para orientar políticas estaduais de conservação e uso sustentável de seus recursos. O levantamento e consolidação dos dados faz parte do Programa Biota-Pará, a ser lançado neste terça-feira, fruto de uma parceria entre o Museu Goeldi, instituição de pesquisa ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, e a organização não governamental Conservation International do Brasil (CI). Os recursos para o primeiro ano do projeto são estimados em R$400 mil, dos quais 100 mil são da CI e o restante é a contrapartida do Goeldi.A atualização da lista de espécies ameaçadas de extinção será feita a partir da consulta a especialistas das mais diversas áreas e consolidada num workshop, previsto para meados de 2003. ?A elaboração da lista, no Pará, é um instrumento essencial para direcionar as ações de conservação no estado e assim evitar a perda das espécies e dos ecossistemas nos quais elas vivem?, explica José Maria Cardoso da Silva, diretor para a Amazônia da CI. Segundo ele, embora a ocupação no Pará - sobretudo na região de Belém e nas margens do rio Amazonas - seja muito antiga, a fronteira econômica não está estabilizada. ?Ainda existem desmatamentos, extração de madeira de lei, expansão da agropecuária e uma dinâmica social complicada, que coloca em risco muitas espécies devido à perda de ecossistemas, sobretudo nas áreas de endemismos?.O Pará abriga 4 dos chamados centros de endemismos da Amazônia, áreas diferenciadas, dentro da floresta, onde é particularmente alta a biodiversidade, com grande número de espécies endêmicas, ou seja, que só existem ali e em nenhum outro lugar do mundo. Os quatro centros são: o da Guiana, ao norte do rio Amazonas; o do Xingu, entre os rios Xingu e Tocantins; o de Tapajós, entre os rios Xingu e Tapajós e o Centro de Endemismos Belém, estendendo-se para o leste e o sul da capital paraense. Por ser o mais ameaçado, com alto índice de desmatamentos e fragmentação de florestas, o Centro de Endemismos Belém será o primeiro a ter seu diagnóstico de biodiversidade realizado pelo Biota-Pará. Uma avaliação recente feita com as aves desta região - por Júlio Roma, da Universidade de Brasília, José Maria C. da Silva, da CI e David Oren, da Nature Conservancy do Brasil - indicou que das 531 espécies de aves registradas, cerca de 116 ou 22% estão ameaçados de extinção local.Os pesquisadores comparam o estado de fragmentação destas florestas e o conseqüente risco à sobrevivência das espécies, à precária situação da Mata Atlântica. ?É o setor mais ameaçado da Amazônia Brasileira, pois cerca de 60% das suas florestas já foram cortadas e os remanescentes continuam sob grande pressão?, comenta Ima Célia Vieira, do Museu Paraense Emílio Goeldi, que desenvolve pesquisas na região há mais de 10 anos. O Centro de Endemismos Belém compreende 125 municípios, totalizando 205,7 mil km2, onde vivem 1,4 milhões de habitantes, em zona urbana, e 2 milhões, em zona rural, perfazendo 3,4 milhões de habitantes ou quase 27% da população total da Amazônia brasileira. Hoje, existem ali 11 áreas indígenas, uma reserva biológica federal, três outras pequenas áreas de proteção integral (junto a Belém) e mais três áreas de uso sustentável, que abrangem sobretudo a zona costeira. A maior parte das florestas relativamente saudáveis está na Reserva Biológica de Gurupi e nas áreas indígenas contíguas, mas a falta de implementação destas unidades as deixam expostas à invasão de madeireiros, que têm ali um dos últimos redutos de exploração de madeiras de lei da chamada Zona Bragantina.Para José Maria Cardoso da Silva, ?se algo não for feito, urgentemente, poderemos ter uma extinção em massa, a primeira deste tipo a atingir a Amazônia, desde a entrada do homem na região?. A expectativa é de mobilizar outras ongs, governo estadual, governos municipais, lideranças indígenas e comunidades locais, a partir do Biota-Pará, e desenvolver um plano emergencial para a conservação da biodiversidade da região. Uma reunião, com todos os setores, deve ocorrer em agosto de 2003. ?Para definirmos um conjunto de ações concretas?, explica Tereza Cristina Ávila Pires, coordenadora do programa Biota-Pará. ?Mas podemos antecipar, que estarão incluídas ações como a implementação efetiva das unidades de conservação já criadas e o estabelecimento de corredores ecológicos, através da criação de Reservas Privadas do Patrimônio Natural (RPPNs) e da restauração de florestas em áreas críticas, hoje degradadas?.

Agencia Estado,

21 de outubro de 2002 | 20h18

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