Proibição de transgênicos beneficia Brasil, diz Greenpeace

O Brasil só tem a ganhar mercado se mantiver a proibição de cultivo de organismos geneticamente modificados (OGM). É o que tenta provar o Greenpeace, ao lançar nesta segunda-feira o relatório As vantagens da soja e do milho não-transgênicos para o mercado brasileiro, com estatísticas de órgãos oficiais, análises de mercado e opiniões de consumidores.A entidade ambientalista também trouxe ao País representantes de empresas italianas e francesas, consumidoras há pelo menos três anos de soja brasileira não-transgênica, para encontros, em Brasília, com representantes da Confederação Nacional de Agricultura e Comissão da Agricultura da Câmara dos Deputados, além de visita a produtores e exportadoras do Paraná e produtores de suínos em Santa Catarina.Segundo Jean-François Fauconnier, especialista em mercado do Greenpeace Internacional, a rejeição cada vez maior aos produtos transgênicos coloca o Brasil em posição privilegiada no mercado internacional de soja, principalmente porque os maiores produtores do grão ao lado do Brasil priorizam o cultivo de transgênicos: Estados Unidos, com cerca de 70% da produção, e Argentina, com 90%.O Brasil é o segundo maior produtor de soja, com aproximadamente 20% da produção mundial - 14 milhões de toneladas de grão e 10 milhões de toneladas de farelo - e, fora denúncias de cultivo ilegal de sementes transgênicas no sul do País, só produz soja convencional.O Greenpeace não tem números sobre o potencial mercado da soja brasileira não-transgênica, mas aponta um cenário animador para o produtor brasileiro. Segundo o documento divulgado nesta segunda, os mercados europeu, chinês e japonês de farelo de soja somam 43 milhões de toneladas.Enquanto na Europa, a alimentação humana é quase exclusivamente não-OGM, a ração animal ainda utiliza 75% de transgênicos, porcentual que, insiste o Greenpeace, deve cair com as normas de rastreabilidade e certificação que estão sendo adotadas pela União Européia até o final deste ano."Japão e China também priorizam produtos não-transgênicos, sendo que a China adotou recentemente normas de rotulagem para OGMs", reforça Mariana Paoli, coordenadora da campanha de Engenharia Genética do Greenpeace Brasil. De acordo com ela, o Brasil perderia esse mercado em expansão se começasse a plantar grãos transgênicos ou liberasse a importação de produtos que os contivessem."Hoje, o Brasil é o único país com capacidade para atender o mercado europeu e asiático, que rejeita produtos transgênicos", diz Mariana.De acordo com o Greenpeace, desde que começou a plantar soja transgênica, os Estados Unidos viram suas exportações do grão para a Europa caírem de 9,2 milhões de toneladas, em 1996, para 6,8 milhões, em 2000.O Brasil, nesse período, duplicou suas exportações, de 3,1 milhões de toneladas para 6,3 milhões. A opção pelo plantio de milho transgênico também seria a causa da queda das exportações americanas do cereal para a UE: o valor dessas exportações era de US$ 305 milhões há seis anos e recuou para US$ 2 milhões em 2001, segundo dados do Departamento de Agricultura (USDA), citados pelo Greenpeace.O Canadá também teria perdido mercado na Europa ao adotar o cultivo de canola transgênica: o país exportava 322 mil toneladas em 96 e conseguiu vender apenas 500 toneladas para os europeus, há dois anos. Com essa rejeição ao produto transgênico, Estados Unidos e Canadá começam a adotar, segundo o Greenpeace, a segregação dos cultivos, de modo a obter produção tradicional e atender os consumidores europeus e asiáticos.No relatório divulgado nesta segunda, a entidade ambientalista insiste no inconveniente da liberação do plantio de OGMs. "Além de ser uma operação muito dispendiosa para o produtor e exportador, a segregação da produção não é 100% segura", diz Fauconnier.A italiana Amadori, segunda maior produtora de frangos daquele país, com 35 milhões de frangos certificados ao ano, paga prêmio de US$ 13 a US$ 30 por tonelada para a soja importada não-transgênica. De acordo com Paolo Monragna, responsável pelo Departamento de Qualidade, são adquiridas no Brasil cerca de 30 mil a 5o mil toneladas de farelo de soja por mês.Praticamente todo esse volume é destinado à produção repassada à rede varejista Coop Itália, a maior da Itália, que prioriza a produção certificada nos quatro sistemas de produção: aves, suínos, bovinos e peixes. Mas a Amadori também compra soja brasileira sem certificação, no mesmo volume - de 30 mil a 50 mil toneladas/mês. "Temos um sistema de análise próprio, que pode apontar de 10% a 30% de contaminação por produtos transgênicos", diz Monragna. Segundo ele, a indústria tem cinco fábricas de ração, sendo que uma delas só produz ração não-transgênica. A soja compõe 40% da ração utilizada pela Amadori. No caso do milho, que também faz parte da ração, toda a necessidade é atendida pela produção italiana.Mesmo sendo o principal freguês da Amadori, a Coop Itália tem outros fornecedores de frangos e suínos na Itália, que, juntos, importam do Brasil 1,5 milhão de toneladas de farelo de soja por ano. O diretor de qualidade da Coop, Carlos Bianchi, veio ao Brasil com os outros dois empresários europeus - Paolo Montagna, da Amadori, e René Bonomi, da Cooperl - e diz que o mercado europeu começa ser exigente também em relação à ração utilizada na alimentação dos animais e disposto a pagar por isso.Segundo ele, no caso do frango produzido pela Coop, o consumidor paga 1 euro a mais (ou duas mil liras) pelo produto certificado. Bianchi, assim como os outros dois empresários ciceroneados pelo Greenpeace, diz que empresas interessadas em produtos não-transgênicos encontram dificuldade para fechar negócios na Europa porque poucas tradings européias garantem produto certificado.Por isso, o grupo tem feito negócios diretamente com empresas instaladas aqui, como a Imcopa, do Paraná. Segundo Paolo Monragna, da Amadori, os prêmios pagos pelo produto livre de OGM vem caindo pela maior oferta das tradings desse produto. O grupo deve deixar o País no sábado, após visita a quatro Estados.

Agencia Estado,

10 de junho de 2002 | 17h10

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