Projeto juçara dará renda a quilombos do Vale do Ribeira

Ameaçada de extinção pelo corte indiscriminado e clandestino, a palmeira juçara, uma das espécies vitais para a biodiversidade da mata atlântica, ganhou um grupo de aliados no Vale do Ribeira, no sul do Estado de São Paulo. As comunidades quilombolas da região onde se encontram as maiores reservas brasileiras dessa floresta vão ajudar a recompor as populações da palmeira na mata. Em contrapartida, os descendentes de escravos poderão colher palmito e produzir suco a partir das sementes da juçara. O projeto piloto está sendo desenvolvido no quilombo de Ivaporunduva, no município de Eldorado, numa parceria entre a Associação dos Moradores e o Instituto Socioambiental (ISA), organização não governamental com sede em São Paulo. O Ministério do Meio Ambiente repassou à associação US$ 90 mil do Programa Piloto de Proteção das Florestas Tropicais, bancado com recursos internacionais. Com a verba, os quilombolas adquiriram sementes e efetuaram a dispersão em 200 hectares da área do quilombo, que totaliza 3.150 hectares.O plantio foi feito em quatro etapas, em sistema de mutirões. Segundo o agrônomo da ISA, Fábio Graf Pedroso, a semeadura foi programada para a obtenção de mudas em vários estágios. O projeto foi inspirado em trabalho desenvolvido pelo veterinário Marcos Malta Migliano na fazenda Picacau Amarelo, no município de Sete Barras. Numa área de 353 hectares, Migliano faz o manejo sustentado da juçara para a produção de palmito e suco. Em visitas à fazenda, os quilombolas aprendem a colher sementes, produzir o suco e fazer o manejo da espécie. Entre eles, há caçadores e palmiteiros que estão saindo da clandestinidade. "Para tirar um feixe de palmitos a gente precisa caminhar uns 20 quilômetros e passar a noite no mato", conta Cláudio Rodrigues, de 47 anos, um dos que desistiram da atividade. "Só tem palmito em parque e a polícia florestal não dá sossego." Migliano explica as vantagens da produção do suco, mais saboroso e nutritivo que o açaí. Colhendo dois cachos dos quatro que cada palmeira produz pode-se obter até 5 quilos de polpa por árvore sem risco de afetar o ciclo reprodutivo da espécie. "Uma palmeira viva rende até R$ 20,00 para produtor, enquanto abatida, vale no máximo R$ 2,00". As sementes despolpadas são devolvidas a mata.A polpa da juçara tem mercado garantido, inclusive compradores norte-americanos, segundo Migliano. Ele defende a inclusão dos parques estaduais no projeto. A proposta, apresentada à Secretaria do Meio Ambiente do Estado, está sendo analisada há mais de um ano pelo Instituto Florestal. O veterinário lamenta a demora. "As palmeiras produzem uma vez por ano e o período de colheita é curto." Os palmitos continuam sendo retirados clandestinamente dos parques. O risco, segundo ele, é ser autorizado quando não tiver mais juçara. O projeto dos quilombolas é desenvolvido em área próxima do Parque Estadual de Intervales. Como a palmeira começa a produzir em 8 anos, os quilombolas fazem outros trabalhos de retorno mais rápido, como o manejo de ervas medicinais, artesanato e cultivo de banana. O líder do grupo, Silvestre Rodrigues da Silva, de 58 anos, colhe cerca de 100 caixas e obtém receita de R$ 300,00 por mês. Os produtores requereram a certificação de produto orgânico, o que dobrará o preço. O projeto juçara será expandido a outros 9 comunidades quilombolas da região. Nas áreas desses quilombos as palmeiras já são raras.Ex-caçadorEx-caçador, o quilombola Silva conhece da prática a importância da palmeira juçara para a floresta. "Os frutos atraem aves como o jacu, o tucano, o macuco e várias espécies de sabiá. No chão, são comidos pela paca e cotia e, o palmito, na árvore, é almoço do mono carvoeiro e do macaco prego." Ele conta que os primatas preferem as palmeiras que nascem nos brejos, de caule mais tenro. Aves e animais atraem, por sua vez, predadores naturais, entre eles a onça. "Onde tem palmito, não falta caça boa." Silva conta que sempre caçou para suprir de carne a dieta da família. Abateu aves como macuco, jacu e jacutinga, e animais como paca, cateto, tatu e macacos, entre eles o raro mono-carvoeiro, e até uma onça. "A fera estava sobre uma árvore e ia pular em mim", justifica. Um dia, virou a caça: foi picado por uma cobra jararacuçu. "As presas cravaram na coxa e ela não queria largar mais."

Agencia Estado,

07 de outubro de 2002 | 17h59

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