Gutemberg Brito/IOC/Fiocruz/Divulgação
Gutemberg Brito/IOC/Fiocruz/Divulgação

Proteína produzida pelo HIV pode combater vírus da gripe suína

Estudo publicado pela revista científica 'Plos One' abre caminho para uma terapia contra a gripe suína, também conhecida como gripe A

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2014 | 16h09

RIO - O organismo de pessoas portadoras do HIV, apesar da baixa imunidade, pode combater o vírus da gripe suína, que promoveu a pandemia de 2009. Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) identificaram o mecanismo pelo qual isso acontece - uma proteína, produzida pela imunidade durante a infecção pelo HIV, acaba impedindo o vírus Influenza H1N1 de se replicar nas células. O estudo, publicado nesta segunda-feira, 30, pela revista científica Plos One, abre caminho para uma terapia contra a gripe  suína, também conhecida como gripe A, e estudos de coinfecções por outros vírus, como o da dengue e o da febre do Nilo.

O estudo começou em 2009, durante a pandemia de H1N1, e foi desenvolvido no Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do IOC, que é referência nacional no estudo destas viroses. Os pesquisadores observaram que pacientes imunodeprimidos com câncer ou transplantados foram afetados de forma mais grave pela gripe suína e a mortalidade, mais acentuada. Já entre os pacientes soropositivos, a gripe foi mais branda. "O desfecho clínico dos indivíduos HIV positivo eram similares aos observados para a população geral. Eles não estavam morrendo mais do que a população geral. Isso causou uma surpresa", afirmou o autor principal do estudo, Thiago Moreno L. Souza, pesquisador do IOC.

A teoria dos pesquisadores é de que havia uma "estratégia inteligente" do HIV: bloquear a infecção do organismo por outro vírus, "a fim de que toda a maquinaria do paciente estivesse disponível para o vírus original, o primeiro que estava lá". 

O que acontece é que na infecção por HIV há uma luta constante do organismo contra o vírus, e também há reação constante do vírus à resposta do organismo. Nesse embate, proteínas chamadas de fatores de restrição têm a sua expressão aumentada nas células infectadas pelo HIV e nas células que tiveram contato com partículas do HIV. Os pesquisadores descobriram que o vírus da AIDS faz aumentar um desses fatores, o IFITM3. Essa molécula bloqueia a chegada do material genético do H1N1 no núcleo da célula, onde ocorre a replicação viral.

Processo. Os pesquisadores demonstraram que esse fenômeno ocorre em dois grupos importantes de células: as células epiteliais do trato respiratório e os macrófagos, células do sistema imune que atuam no combate à infecção. As epiteliais são as principais células em que o H1N1 se replica. "O HIV não infecta essas células. Mas partículas de HIV podem entrar em contato com a superfície dessas células. Isso basta para induzir essa resposta de aumento de IFITM3, que bloqueia a entrada de Influenza na célula", explica Souza.

Além disso, quando o vírus da gripe infecta o trato respiratório, ele estimula naturalmente o organismo a debelar essa infecção. "Mais células de defesa são recrutadas para o trato respiratório. Entre elas, os macrófagos, que são células suscetíveis tanto ao HIV quanto ao Influenza. E mesmo nessas células, a infecção pelo HIV leva a esse aumento do fator de restrição IFITM3, que bloqueia a entrada do Influenza, e a chegada do material genético do Influenza ao núcleo da célula", afirma.

Uma das causas que aumenta a gravidade da infecção pelo H1N1 é a capacidade do vírus de produzir processos inflamatórios potentes. O HIV também bloqueia esse tipo de reação exacerbada. "Em inglês se usa uma expressão que é cytokine storm, uma tempestade de citocinas, para dizer que o Influenza está induzindo uma potente resposta inflamatória que normalmente é danosa pro paciente. Nos macrófagos infectados pelo HIV e pelo influenza, a habilidade do vírus da gripe de induzir citocinas inflamatórias está reduzida, justamente porque o ciclo replicativo dele está restringido", explica Souza.

Desafio. O desafio dos pesquisadores, agora, é encontrar uma maneira de aumentar a produção da proteína IFITM3, sem que o organismo esteja infectado pelo HIV. "Obviamente que as pessoas não seriam tratadas com o vírus do HIV, mas se a gente consegue entender qual a porçãozinha dessa proteína, os dois, três, ou dez aminoácidos que conseguem induzir essa resposta, talvez com isso conseguisse de fato desenvolver uma nova terapia. A gente tem trabalhos já sendo desenvolvidos nesse sentido no laboratório", afirmou o pesquisador.

A pesquisa pode ajudar ainda a se chegar a terapias para outras doenças. Souza explica ainda que a proteína IFITM3 foi descoberta há menos de três anos como fator de restrição para outros vírus, como dengue e febre do Nilo. "É possível que os dados que a gente apresenta para Influenza possam ser confirmados para outros vírus. Ou seja, é bem possível que, num caso de infecção por HIV, esse fator bloqueie a dengue e a febre do Nilo. E naturalmente se a gente consegue entender como uma subfração de proteína do vírus HIV poderia disparar essa resposta, isso talvez tenha repercussão não só para replicação do Influenza, mas também para replicação desses outros vírus, que também são afetados pelo aumento dos níveis de IFITM3", afirmou.

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