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Pulo na área da mata

Com 30% do bioma é possível preservar a biodiversidade da nossa Mata Atlântica

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2019 | 03h00

Anote aí que notícia é boa: a quantidade de Mata Atlântica que existe no Brasil aumentou. Passou de 12% para 29%. Até 2018, acreditávamos que só 12% da Mata Atlântica que existia quando Cabral aportou sua caravela ainda estava de pé; os outros 88% haviam sido derrubados, queimados ou cortados. Mas agora uma nova análise, usando métodos mais modernos, reavaliou esse número e ele mais que dobrou. A conclusão é de que “só” destruímos 71% do que existia, ainda restam 29%.

Saber quanto resta da Mata Atlântica não é tarefa fácil. Primeiro é preciso definir quanto existia originalmente. Como em 1.500 não havia satélites ou aviões, a quantidade original de mata é uma incógnita. Apesar disso, os ecologistas definiram na segunda metade do século 20 a extensão do território nacional coberta pelo ecossistema que hoje chamamos de Mata Atlântica. 

É um polígono de 112 milhões de hectares ao longo da costa, atravessando 15 dos 27 Estados. É na Mata Atlântica que estão as cidades de São Paulo e Rio. É lá que se concentram 66% do PIB industrial do País. Mas é também onde encontramos uma das mais ricas biodiversidades do planeta. Ainda habitam essas matas 2.420 espécies de vertebrados e aproximadamente 20 mil espécies de vegetais. Mas é também nesse bioma que está grande parte das espécies sob risco de extinção.

Por volta de 1980, ficou claro que a Mata Atlântica estava sendo destruída em ritmo alucinante. Um grupo de pessoas – que incluíam cientistas, ambientalistas e jornalistas – criaram uma fundação que, muito apropriadamente, foi chamada de SOS Mata Atlântica. Era um pedido de socorro. 

Uma das primeiras tarefas foi determinar quanto sobrava da Mata Atlântica e tentar acompanhar quanto estava sendo destruído todo ano. Para isso, o SOS Mata Atlântica se associou ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Por meio dessa parceria, foi criado um sistema pioneiro para acompanhar a evolução da Mata Atlântica. Usando satélites, os melhores da época, todo o polígono de 112 milhões de hectares foi fotografado. 

Cada foto foi analisada e a área ainda coberta por mata foi identificada e medida. O primeiro Atlas da Mata Atlântica foi publicado em 1990 e constatou que nos cinco anos anteriores haviam sido desmatados aproximadamente 100 mil hectares por ano. 

Essa taxa de desmatamento tem sido acompanhada e permaneceu constante até 2.000, quando foi reduzida à metade. Ou seja, em média, aproximadamente um milésimo da mata original é derrubada a cada ano. Foi esse projeto que concluiu que hoje só 12,6% da mata ainda está de pé.

A limitação do estudo está no tipo de fotografia usada. Os dados do SOS/Inpe usam fotos obtidas por um satélite antigo. O menor objeto que pode ser detectado é de 30 metros por 30 metros, ou seja, precisa ter 900 m² para ser visto com certeza. Na prática, significa que fragmentos de mata, ou áreas de desmate menores que um quarteirão (100 m por 100 m), dificilmente são detectados. Se você plantar, desmatar ou tiver em sua propriedade uma área de Mata Atlântica menor que um quarteirão, ela não era detectada pela câmera do satélite e não será computada. Foi esse método e esses satélites que forneciam os números até agora. 

A grande novidade é que um grupo de cientistas brasileiros repetiu o estudo usando fotos tiradas em 2013 de toda a área da Mata Atlântica por um satélite moderno. Esse satélite tem resolução de 5 metros, o que significa que o menor quadrado de mata que pode detectar é muito menor, algo como 25 m².

Nessas fotos, áreas de mata muito menores podem ser detectadas. E, por isso, a quantidade total de mata medida é muito maior. O grande impacto da descoberta é que 30% é um número mágico para ecologistas. Eles acreditam que, com 30% do bioma em pé, é possível preservar a biodiversidade e garantir a sustentabilidade da Mata Atlântica. Se antes era necessário restaurar 18% da Mata Atlântica para garantir sua sobrevivência, agora basta unir esses fragmentos replantando 1% da área para garantir que nossa querida mata preservada. Algo realmente factível.

Mas o progresso continua e hoje já há satélites capazes de detectar objetos menores que 1 metro (são essas fotos que vemos no Google Maps). Com esses satélites, no futuro será possível acompanhar o plantio e o corte de praticamente cada árvore na Mata Atlântica, o que, se bem utilizado, vai permitir melhorar muito os projetos de conservação desse e de outros biomas. É uma grande noticia. E lembre, ainda há 29% da Mata Atlântica e você pode contribuir para que cheguemos aos almejados 30%. É possível!

MAIS INFORMAÇÕES: FROM HOSTPOT TO HOPESPOT. AN OPPORTUNITY TO THE BRAZILIAN ATLANTIC FOREST. PERSPECTIVES IN ECOLOGY AND CONSERVATION. VOL. 16, PÁG. 208 (2018)

* É BIÓLOGO

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