Os dinossauros foram extintos, mas deixaram uma linhagem de herdeiros que sobrevive até os dias de hoje. Não são os crocodilos, nem os lagartos, nem as cobras, nem qualquer outro tipo de réptil moderno. São as aves.

13 Setembro 2010 | 23h59

Todos os pássaros são descendentes diretos dos dinossauros. Um parentesco óbvio para os olhos treinados dos biólogos, denunciado por uma série de semelhanças morfológicas no esqueleto de ambos os grupos. E até mesmo por características externas, perceptíveis aos olhos de qualquer observador leigo um pouco mais atento. Nas garras de uma águia, por exemplo, ou no papo de um galo, ou nos movimentos de uma pomba.

Morfologicamente, dinossauros e aves são tão parecidos que há quem diga que os pássaros não só descendem dos dinossauros, mas são, ainda, dinossauros de fato. "Toda vez que você come um frango, está comendo um dinossauro", afirma, sem titubear, o biólogo Luís Fábio Silveira, professor do Instituto de Biociências e curador da coleção de aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP). "As aves são um subgrupo dos terópodes (dinossauros bípedes e carnívoros); o único que sobreviveu à extinção em massa do fim do Cretáceo."

A comparação pode parecer absurda, já que os dinossauros que dominam o imaginário popular costumam ser os mais gigantes, como o braquiossauro, o tiranossauro e o tricerátops. Mas havia, também, muitos dinossauros pequenos, do tamanho de um pombo. E há evidências fósseis de que muitos deles - tanto grandes quanto pequenos - tinham o corpo coberto de penas, iguaiszinhas às das aves atuais.

"A cada fóssil que encontramos fica mais difícil definir o que é uma ave", afirma Silveira. "Vários caracteres que achávamos ser exclusivos delas, não são mais."

A pergunta que precisa ser respondida é a seguinte: Quais são as características que são comuns a todas as aves, mas não estão presentes em nenhum outro tipo de animal? Até pouco tempo atrás, a característica mais óbvia para diferenciar os pássaros eram as penas. Mas isso caiu por terra na década de 1990, quando começaram a surigir vários fósseis de dinossauros emplumados. Havia também a fúrcula, o famoso ossinho da sorte. E a estrutura "pneumática" do esqueleto - ao mesmo tempo leve e resistente, para facilitar o vôo ... Só que tudo isso está presente, também, nos dinossauros terópodes.

Se uma galinha voltasse no tempo até o Cretáceo, morresse, fosse fossilizada e desenterrada por cientistas no presente, seu fóssil poderia ser facilmente descrito como um dinossauro. Uma das poucas características que diferencia os dois grupos atualmente, segundo Silveira, é a orientação do hálux, o osso do dedão do pé. Nos dinossauros ele é virado para cima. Nas aves, ele aponta para baixo, permitindo que elas se agarrem a galhos de árvores, fios elétricos e grades de galinheiro (empoleirar).  Mas nem por isso, diz Silveira, as aves deixam de ser um subgrupo de dinossauros - apesar de não serem classificadas como répteis na sistemática atual.

A ave mais antiga conhecida é o Archaeopteryx, que aparece no registro fóssil cerca de 150 milhões de anos atrás. Trata-se de ma espécie de certa forma transitória, ainda com várias características répteis (como a cauda longa), mas com o corpo já totalmente coberto de penas e com a capacidade de voar pequenas distâncias. E, o mais importante, com o hálux virado para baixo - o que a caracteriza como uma ave.

O Archaeopteryx, então, seria um ancestral comum de todos os pássaros, que, de alguma forma, sobreviveram a seja lá o que for que matou os (outros) dinossauros. Como, exatamente, ninguém sabe. Já os crocodilos, cobras e lagartos têm ancestralidade comum com os dinossauros, mas se separaram deles muito antes na história da evolução, ainda no período Carbonífero, cerca de 350 milhões de anos atrás. Ou seja: são parentes dos dinossauros, mas não descendentes deles (como são os pássaros).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.