Que parte do planeta precisa ser protegida?

Grande parte da conservação de ecossistemas e da biodiversidade mundial, atualmente, se faz dentro dos limites de 44 mil parques e reservas, que somam 13,6 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente aos territórios da China e da Índia, juntos. Se isso é suficiente para garantir a sobrevivência das espécies e os serviços ambientais essenciais ao planeta, é uma das questões a serem debatidas a partir de hoje, em Durban, na África do Sul, onde tem início o V Congresso Mundial de Parques, com a participação de mais de 2.500 pessoas, entre delegações governamentais e não governamentais de 180 países.O evento acontece a cada dez anos e é organizado pela União para a Conservação Mundial (IUCN), uma imensa coalisão de 74 governos nacionais, 108 agências governamentais e cerca de 750 organizações não governamentais de todo o mundo, além de quase 10 mil cientistas. De acordo com os estudos preparados pela IUCN para o congresso, apesar da área nominalmente protegida ser grande, chegando a 12% da superfície terrestre, ainda há muitos parques e reservas de papel, com graves problemas de implantação. Além disso, a distribuição das unidades de conservação é desequilibrada em relação às concentrações de biodiversidade e há lacunas importantes a serem preenchidas. Em 60% dos países, o percentual de território protegido ainda não chegou a 10%, uma das metas estabelecidas em congressos anteriores. Em 20% dos países, os parques e reservas não alcançam nem 1% do território! Menos de 1% também é o total de áreas protegidas nos oceanos, apesar de pelo menos metade da população do planeta viver numa faixa de 60 km a partir do litoral, na zona costeira, e retirar seu sustento do mar. Os ecossistemas lacustres, de água doce, não estão muito melhor, com apenas 1,5% sob algum tipo de proteção. E as montanhas estão igualmente a descoberto, embora garantam boa parte das fontes de água potável e abriguem 10% da população humana mundial. Progressos Alguns progressos significativos foram feitos nesta década, desde o último congresso, realizado em Caracas, na Venezuela, em 1992. Entre eles, destaca-se o crescente envolvimento de populações tradicionais e indígenas na conservação dos ecossistemas e espécies protegidos, com algumas contribuições brasileiras importantes, relativas ao modelo de gestão de áreas mistas protegidas. Também sobressai a criação de áreas protegidas binacionais ou multinacionais, em áreas de fronteira, em alguns casos contribuindo para processos de paz ou minimização de conflitos. Um dos bons exemplos desta proteção à natureza, que ultrapassa limites políticos, é a recém firmada Convenção para a Proteção de Desenvolvimento Sustentável dos Cárpatos, que cobre uma área montanhosa de 206 mil quilômetros quadrados, envolvendo oito países: Ucrânia, Polônia, Romênia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Áustria e Sérvia/Montenegro. Nos Cárpatos estão as nascentes de boa parte dos rios da Europa do Leste e ainda vivem várias espécies de plantas e animais ameaçados, como o urso marrom, lobos e linces.DesafiosA constituição de parques ?transfronteiriços?, porém, tem uma outra face, que pede novas reflexões. Das 59 áreas protegidas, comuns a dois ou mais países, existentes em 1988, passou-se para 169 dessas unidades, várias das quais localizadas no continente africano, onde o fim do apartheid na África do Sul e da guerra civil, em Angola e Moçambique, facilitou as negociações diplomáticas. Em 2001, o Zimbábue, Moçambique e a África do Sul ligaram os parques nacionais de Gonarezhou, Limpopo e Kruger, criando o Parque Transfronteiriço Grande Limpopo, com 35 mil km2, maior do que a Suíça.?Em muitos destes megaparques, porém, as comunidades do entorno assistem à chegada de forasteiros, que vêm para visitar e fazer uma série de coisas interessantes, ali perto de suas casas, e depois vão embora, pagam suas contas no cartão de crédito, sem deixar benefícios para a população local?, diz Kenton Miller, vice-presidente de conservação do World Resources Institute (WRI) e um dos coordenadores do congresso. ?Isso precisa mudar?.De acordo com a IUCN, também há muito a ser feito na proteção efetiva da biodiversidade, considerando que a perda de hábitats continua num ritmo considerado ?intolerável? e o risco de extinção já ameaça 11.167 espécies, em todo o mundo. O fato de parte do setor produtivo ainda encarar parques e reservas como ?entraves ao desenvolvimento? e de faltarem recursos para garantir sua integridade é outra preocupação dos conservacionistas, que calculam ser necessário multiplicar por sete as verbas disponíveis para a proteção da natureza, para fazer face aos atuais impactos de atividades humanas sobre os parques e reservas.Mais uma grande preocupação são os territórios em guerra, sob domínio de guerrilhas ou de outros conflitos armados. ?Países como a Colômbia, Serra Leoa, Nova Caledônia, Filipinas, Sri Lanka, Burma/Myanmar e a República Democrática do Congo, que abrigam elementos vitais da biodiversidade mundial, têm enfrentado sérias dificuldades para manter seus programas de conservação?, diz o documento da IUCN. O mesmo se pode dizer de áreas bombardeadas ou utilizadas como arma de guerra, como a zona inundável entre os rios Tigre e Eufrates, considerada a de mais alta biodiversidade em todo o Oriente Médio. A drenagem ordenada por Saddam Hussein como uma retaliação a opositores, na Guerra do Golfo, teve efeito devastador sobre a flora e a fauna, exterminando uma planta chamada arfaj, usada pelos beduínos como lenha e forragem, e causando a extinção de pelo menos sete espécies ou sub-espécies animais, entre as quais figuram uma lontra, um ratão do banhado e um peixe endêmicos.Todas estas questões estarão em debate na África do Sul, de onde deverá sair um acordo internacional com metas de proteção para a próxima década, recomendações para a próxima reunião da Convenção de Biodiversidade, prevista para o início de 2004 e novos compromissos de financiamento a unidades de conservação, consideradas prioritárias.

Agencia Estado,

08 de setembro de 2003 | 12h13

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