Queimadas recomeçam no Sudeste e Centro-Oeste

O monitoramento orbital de queimadas indica um início de junho quente, com o dobro do número de focos registrados pelos satélites, se feita a comparação com o mesmo período, nos dois anos passados. Entre os dias 1 e 7 de junho, neste ano, já foram detectados 2080 focos, concentrados sobretudo nos estados de Mato Grosso, São Paulo e Tocantins. Em 2001, na primeira semana de junho, foram 942 focos e, em 2000, o total era de 1064 focos. Os dados são do satélite noturno NOAA-12, processados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e digitalizados na forma de mapas pela Embrapa Monitoramento por Satélite. O satélite noturno não detecta muitas das queimadas agrícolas ou de pequena extensão, realizadas durante o dia, mas é o mais utilizado para monitorar os focos de fogo importantes e de maior duração, porque elimina erros de leitura, passíveis de ocorrer durante o dia, como reflexos do sol em espelhos d´água e excesso de calor em áreas de terra nua. CNPM/EmbrapaClique aqui para ver imagem ampliadaAs regiões com maior concentração de focos, nesta primeira semana de junho, foram o centro e norte do Mato Grosso, em especial na área de influência das estradas BR-163 (Cuiabá Santarém), MT-208 e MT-220, entre as Serras do Tombador e Formosa, e alguns trechos das bacias dos rios Teles Pires e Arinos. No oeste do Mato Grosso do Sul, um alto número de focos foi detectado nas vizinhanças de Corumbá, junto ao rio Paraguai, já na área de influência do Pantanal. Queimou ainda a zona canavieira do interior paulista e a região de campos e cerradões do nordeste de São Paulo; alguns trechos do Tocantins, sobretudo perto de Itacajá e na porção oeste da Chapada das Mangabeiras, incluindo algumas áreas indígenas e os parques indígena e nacional do Araguaia, na Ilha do Bananal. E o oeste da Bahia, região de novos plantios de soja, também já começou a pegar fogo, notadamente no Chapadão Ocidental da Bahia e, mais ao sul, nas proximidades da BR-349.Fogo nas áreas indígenasA exemplo do que foi feito no ano passado, o Inpe continuou monitorando os focos de fogo localizados dentro de territórios e parques indígenas, assim como nas unidades de conservação. Nestas, a rigor, o índice deveria ser zero, mas o isolamento, o tamanho dos parques e reservas, a baixa relação de guardas-parque por km2 e a ação ilegal de madeireiros, garimpeiros, grileiros, posseiros e caçadores, coletores ou pescadores acaba resultando no início de focos, considerados sempre como incêndios (e não queimadas) e implicando na intervenção de brigadas de voluntários e bombeiros. Desde o início do ano, foram detectados 60 focos dentro de unidades de conservação. Em alguns casos, os incêndios correspondem à época de maior seca, sendo maior a probabilidade do início do fogo ter sido acidental, como no caso das unidades de conservação do extremo norte do país, onde as chuvas só têm início no fim de março e princípio de abril. Entre estas destacam-se a Estação Ecológica de Maracá, em Roraima, onde foram registrados 24 focos, em janeiro, fevereiro e março, e a Reserva Biológica do Lago Piratuba, no Amapá, que teve 5 focos ainda em janeiro. Mas há também registros fora da época seca, que merecem mais atenção, como é o caso do Parque Nacional do Araguaia, no Tocantins, freqüentemente incendiado por criadores de gado das redondezas, que teve 12 focos em plena época chuvosa, ou o Parque Nacional do Pico da Neblina, no Amazonas, com 2 focos no dia 28 de março. Vale lembrar que o Pico da Neblina é totalmente isolado, sem comunidades, estradas ou pistas de pouso por perto, mas tem sido alvo de incursões de garimpeiros, em busca de tantalita. CNPM/EmbrapaImagem do satélite Landsat registrando as queimadas na área indígena dos ParecisO monitoramento contínuo também nas áreas indígenas mostrou que o uso do fogo é ininterrupto e está associado às técnicas tradicionais de preparo de solo agrícola e de caça, razão pela qual podem ocorrer também fora da época seca. Segundo documento de análise da Embrapa Monitoramento por Satélite, contendo o balanço das queimadas do ano 2001, entre os meses de junho e novembro foram computadas 5596 focos em unidades de conservação e áreas indígenas, correspondendo a 4,3% do total detectado no Brasil, no período. Destas, 3960 queimadas aconteceram em áreas indígenas, apenas nos estados do Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Roraima e Tocantins. Conforme o documento, de autoria de Evaristo Eduardo de Miranda, Eduardo Caputi e Alejandro Dorado, ?muitos estudiosos acreditam que a extensão atual dos cerrados é muito superior ao que deveria ser sua área natural. O uso do fogo pelas populações indígenas explicaria a redução das áreas florestais frente aos cerrados, num processo milenar conhecido como savanização. O monitoramento por satélite da Área Indígena dos Tiriós e suas vizinhanças, no norte do Pará, fronteira com a Suriname, permite visualizar perfeitamente esse tipo de processo?. O mesmo vem acontecendo na Chapada dos Parecis, onde, do início de abril e esta primeira semana de junho, já foram registrados 42 focos de fogo. No total, neste ano, os satélites já detectaram 455 focos em 43 áreas indígenas de Roraima, Mato Grosso, Amazonas, Tocantins, Pará, Mato Grosso do Sul, Amapá, Rondônia e Maranhão.

Agencia Estado,

11 de junho de 2002 | 14h34

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