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Quem deseja quem

No fim, os casamentos ocorrem entre pessoas de graus semelhantes de atratividade

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2018 | 03h00

A formação de pares entre humanos não é um processo randômico. Apesar da diversidade de raça, nível educacional e classe social, a maioria dos casamentos ocorre entre semelhantes. Mas o que intriga os cientistas é como esse resultado é obtido. 

Uma das hipóteses é que as pessoas procuram só semelhantes a elas mesmas, e é por isso que os casamentos são entre semelhantes. Outra hipótese é de que as pessoas procuram pessoas diferentes delas mesmas, teoricamente mais desejáveis, seja por serem mais ricas ou educadas. Mas, na competição que se estabelece no processo de formação de pares, essas pessoas acabam somente conseguindo parear com as semelhantes a si mesmas.

Nessa segunda hipótese, os humanos seriam semelhantes aos animais. Todos sabemos que nas escolas há meninos e meninas mais desejados e os sumariamente rejeitados, o lixão, como diz meu filho. Observações como essa sugerem que, no “quem deseja quem” dos humanos, a segunda hipótese é a que explica nosso comportamento.

Mas isso nunca foi investigado rigorosamente. A novidade é que, analisando dados gerados pelos aplicativos de relacionamento como OkCupid e Tinder, foi possível descobrir estratégias de pareamento utilizadas por grandes populações.

Esses apps já têm papel importante na formação de casais. Nos Estados Unidos, 11% da população e 38% das pessoas que procuram um parceiro utilizam, a cada mês, algum desses aplicativos. Impressionantes 23% dos casamentos ocorrem entre pessoas que se encontraram dessa forma. Eles já são a terceira forma mais popular de encontrar parceiros, após a apresentação por amigos e encontros em bares.

Os cientistas obtiveram dados gerados por um desses apps de 1.º a 31 de janeiro de 2014 em quatro grandes cidades: Nova York, Boston, Chicago e Seattle. Foram incluídos no estudo todos que mandaram ou receberam ao menos uma mensagem pelo app no período – e na inscrição se declararam heterossexuais. Os cientistas analisaram um único tipo de dado: o número de mensagens que a pessoa mandou ou recebeu e de quem ou para quem a mensagem foi enviada.

A primeira constatação é de que o número de mensagens que uma pessoa recebe varia muito. Quase 25% dos homens e 12% das mulheres recebem de uma a dois mensagens por mês, mas a distribuição tem uma longa cauda que cai abruptamente. Só 10% das pessoas receberam até 10 mensagens e pouquíssimas, mais de 50 por mês. A campeã foi uma mulher de 30 anos de Nova York que recebeu 1.504 mensagens durante o mês, o que equivale a uma mensagem a cada 30 minutos – realmente alguém muito desejado. Essa distribuição no número de mensagens recebidas demonstra que alguns são muito desejados e outros, pouco procurados.

Em seguida, os cientistas calcularam um índice de atratividade de cada pessoa. Para isso, levaram em consideração o número de mensagens recebidas (mais mensagem, mais atrativa) e também quem havia recebido suas mensagens. 

A ideia é que as pessoas mais desejáveis são aquelas que recebem mais mensagens de pessoas mais desejáveis. Ou seja: se recebo tantas mensagens quanto você, mas as minhas vêm de mulheres que recebem muitas mensagens, eu sou mais atrativo no ranking de atratividade que você. Usando esse algoritmo, que só considera o número de mensagens recebidas (independe da foto ou de qualquer outro dado que a pessoa colocou no perfil), os cientistas calcularam um índice de atratividade para cada pessoa. 

De posse desse índice, eles olharam o perfil das pessoas para identificar as características desses usuários. Nas mulheres, o índice de atratividade é máximo aos 18 anos e cai rapidamente à medida que a idade aumenta. Já nos homens, o índice aumenta entre os 18 e os 50 anos e depois cai entre os 50 e 60 anos, mas aos 60 os homens são ainda mais atrativos que aos 18 anos (essa eu gostei). As mulheres asiáticas e com educação universitária são as mais atrativas entre os homens. Já os homens brancos e com pós-graduação são considerados mais atrativos entre as mulheres.

Finalmente, os cientistas investigaram se as primeiras mensagens enviadas por homens e mulheres eram dirigidas a pessoas do mesmo índice de atratividade de quem enviou a mensagem. Os dados mostram que os usuários do app mandam mensagens para pessoas com índice de atratividade parecido ou até 25% maior que o seu. 

Poucas mensagens são mandadas para pessoas com um índice de atratividade muito maior ou muito menor que o da pessoa que envia a mensagem. Na média, os homens arriscam mais e enviam mais mensagens para as mulheres mais atrativas; já as usuárias são mais comedidas. 

E agora o mais importante: as pessoas raramente respondem a mensagens de usuários menos atrativos, geralmente respondem a mensagens de pessoas do mesmo nível de atratividade, e sempre respondem as mensagens de pessoas de maior atratividade.

Esses resultados indicam que mesmo sem ter uma informação objetiva sobre sua atratividade, as pessoas são capazes de imaginar seu lugar no ranking de atratividade. Mas, mesmo sabendo sua posição, tanto homens quanto mulheres desejam pessoas mais atrativas que eles mesmos. Esse desejo provoca uma competição pelas pessoas mais atrativas, que se comportam de maneira seletiva. No fim, os casamentos ocorrem entre pessoas de graus semelhantes de atratividade.

A conclusão é que a segunda hipótese é a correta: pessoas de ambos os sexos desejam pares mais atrativos que elas próprias. O triste é que no processo competitivo do pareamento a maioria acaba casando com pessoas do mesmo grau de atratividade.

Qualquer jovem do ensino médio (ou a própria experiência) sabe que é assim mesmo que a coisa funciona, mas é reconfortante saber que nossa intuição não é fruto de uma ilusão ou complexo de inferioridade. Ela corresponde ao que foi observado cientificamente.

MAIS INFORMAÇÕES: ASPIRATIONAL PURSUIT OF MATES IN ONLINE DATING MARKETS. SCI. ADV. 4, EAAP9815 (2018)

*É BIÓLOGO

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