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James Webb, que dá nome ao telescópio, liderou a Nasa na corrida espacial e foi acusado de homofobia

Webb era um defensor ferrenho da ciência espacial; quando foi subsecretário do Estado, teve certa responsabilidade por um evento conhecido como Lavender Scare, que resultou na expurgação de funcionários gays e lésbicas do governo

Dennis Overbye, The New York Times

13 de julho de 2022 | 11h16

Em 2002, Sean O’Keefe, então administrador da Nasa, anunciou que o próximo telescópio da agência teria o nome de James Webb, que liderara a Nasa durante a década de 1960, quando o órgão americano se preparava para pousar pessoas na Lua. Ele era um defensor ferrenho da ciência espacial.

Alguns astrônomos ficaram desapontados com o fato de que o telescópio não teria o nome de um astrônomo. Outras pessoas fizeram objeções por motivos mais sérios: Webb teve certa responsabilidade por um evento durante o governo Truman conhecido como Lavender Scare, que resultou na expurgação de funcionários gays e lésbicas do Departamento de Estado. Na época, Webb era o subsecretário de Estado.

Essa questão ganhou destaque um ano atrás, quando quatro astrônomos – Lucianne Walkowicz, da JustSpace Alliance e do Adler Planetarium em Chicago, Chanda Prescod-Weinstein, da Universidade de New Hampshire, Brian Nord, do Fermi National Accelerator Laboratory e da Universidade de Chicago, e Sarah Tuttle, da Universidade de Washington – publicaram um artigo de opinião na Scientific American, com o título O telescópio espacial James Webb precisa de outro nome.

A Nasa disse que investigaria as alegações e publicaria um relatório. Posteriormente, em setembro, Bill Nelson, atual administrador da Nasa e ex-senador da Flórida, anunciou que não via necessidade de mudar o nome. Nenhum relatório foi divulgado, o que enfureceu os críticos.

Em março, após o lançamento do telescópio, a revista Nature informou, após pedidos fundamentados na Lei de Liberdade de Informação, que a Nasa havia levado as reivindicações a sério o suficiente para que Paul Hertz, então diretor de astrofísica da Nasa, tivesse escrito a astrônomos de fora da agência perguntando se ele deveria mudar o nome do telescópio. A resposta foi 'não', mas ele não conversou com nenhum astrônomo da comunidade LGBT+.

A revista também relatou registros do caso de Clifford Norton. Ele foi demitido da Nasa em 1963 – durante o mandato de Webb – por ser gay, e os materiais de arquivo fazem menção a “um costume na agência” de demitir pessoas por atividades homossexuais. Norton recorreu e ganhou um caso histórico contra tal discriminação em 1969.

Em novembro de 2021, o Comitê Consultivo de Astrofísica da Nasa pediu à agência um relatório mais completo. O’Keefe defendeu sua escolha em um e-mail. “Indiscutivelmente, se não fosse a determinação de James Webb de cumprir a visão mais audaciosa de seu tempo, nossa capacidade de exploração hoje seria totalmente diferente”, disse O’Keefe.

Mas isso não foi suficiente para os críticos. “Se ele não é responsável pelas coisas ruins que aconteceram enquanto ele estava no comando, por que é responsável pelas coisas boas?”, Prescod-Weinstein disse. “Parece que estamos falando em dois pesos e duas medidas aqui, porque as pessoas atribuem a ele a responsabilidade pelas coisas de que gostam em seu legado e fingem que ele é responsável SÓ pelas coisas de que gostam", afirmou.  “Se vamos dar nomes de pessoas a nossos telescópios, devemos dar o nome de pessoas que nos inspiram a sermos melhores”, acrescentou Prescod-Weinstein. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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