Quem matou os dinossauros?

Hipótese mais aceita diz que foi um grande asteroide que colidiu com a Terra, 65 milhões de anos atrás. Mas será só isso? Mistério científico ainda não foi resolvido

Herton Escobar,

13 Setembro 2010 | 23h59

Alguma coisa muito grave aconteceu 65,5 milhões de anos atrás. Até essa data, que marca o fim do período Cretáceo, as camadas mais antigas da crosta terrestre estão cheias de dinossauros. De repente, eles desaparecem. Dali em diante, quem prolifera e assume o comando da cadeia alimentar são os mamíferos, grupo que eventualmente daria origem aos seres humanos - que, milhões de anos mais tarde, olhariam para trás e se perguntariam: Quem matou os dinossauros?

É um enigma que atormenta e fascina os cientistas há quase dois séculos. Um dos maiores mistérios sobre a evolução da vida na Terra. O principal suspeito nas investigações é um asteroide de 10 quilômetros de diâmetro - maior do que o Monte Everest - que teria atingido o planeta onde hoje fica a península de Yucatán, no México, detonando um processo catastrófico de aberrações climáticas, terremotos e tsunamis, que acabou por exterminar grande parte dos grupos de fauna e flora daquela época. Incluindo os dinossauros, os pterossauros, os grandes répteis marinhos e praticamente todo e qualquer animal com mais de 25 quilos.

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A acusação conta com uma série de evidências a seu favor. Mas também está repleta de interrogações. Por exemplo: se o impacto foi tão catastrófico a ponto de exterminar os dinossauros, como é que os mamíferos, anfíbios e todas as outras linhagens de animais e plantas que existem hoje sobreviveram? Seria o impacto o único culpado? Ou teria ele agido em cumplicidade com outros agentes exterminadores? Talvez um vulcão, ou mesmo outros asteroides de grande porte?

Uma das poucas certezas nessa história é que um asteroide colidiu com a Terra 65 milhões de anos atrás. A assinatura geoquímica desse impacto pode ser lida na forma de elevadas concentrações de irídio, encontradas na camada geológica que marca a transição entre os períodos Cretáceo e o Terciário (o famoso limite KT, também chamado pelos geólogos de K-Pg, ou Cretáceo-Paleógeno).

O irídio é um metal raríssimo na crosta terrestre, mas muito comum em asteroides. Coincidência? Não. As concentrações de irídio em toda a camada do limite K-Pg (que recobre o solo no qual os dinossauros pisavam pouco antes de morrer) estão muito acima das concentrações naturais encontradas em qualquer outra camada da Terra.

Seguindo o rastro de distribuição desses fragmentos ao redor do mundo, chega-se ao povoado de Chicxulub, na península do Yucatán. Debaixo do qual, centenas de metros abaixo da superfície, encontra-se uma cratera de 180 km de diâmetro que, segundo os cientistas, é a cicatriz deixada pelo impacto de um grande asteroide, cujo irídio teria sido lançado na atmosfera e se espalhado pelo planeta, como os fragmentos de uma bomba. As medições indicam que o asteroide tinha 10 km de diâmetro, e que o impacto ocorreu 65,5 milhões de anos atrás. Bingo!

Que um impacto ocorreu, portanto, é fato. Mas seria ele o verdadeiro e único culpado pela extinção dos dinossauros?

O argumento mais próximo de um veredicto foi dado por meio de um estudo na revista Science, publicado em março deste ano. Nele, 41 cientistas fazem uma revisão de tudo que foi pesquisado sobre o assunto nos últimos 20 anos. E concluem que o impacto de Chicxulub foi, mesmo, o responsável pela extinção em massa do fim do Cretáceo.

Só a onda de calor gerada pelo impacto já teria matado tudo num raio de centenas de quilômetros, instantaneamente. Na sequência, além dos terremotos e tsunamis, quantidades gigantescas de enxofre, fuligem e rocha pulverizada foram lançadas na atmosfera, produzindo chuvas ácidas e bloqueando a luz do Sol por um período de vários meses ou até anos, segundo o pesquisador Peter Schulte, da Universidade de Erlangen-Nürnberg, na Alemanha, que coordenou o estudo.

O planeta ficou frio e escuro. A fotossíntese parou. Os herbívoros morreram de fome. Os carnívoros, que se alimentavam dos herbívoros, também. Por fim, estima-se que cerca de 50% das espécies de fauna e flora do planeta nunca voltaram a ver a luz do dia.

Sorte dos mamíferos, que sobreviveram à catástrofe e passaram a dominar o planeta após o sumiço dos grandes répteis.

Asteroide vs. vulcão. Todas as peças, então, parecem se encaixar: a cratera, o irídio, o sumiço dos dinossauros. Mas nem todos estão convencidos. Há quem diga que não foi só isso. Ou até que uma coisa, na verdade, não tem nada a ver com a outra.

A grande "cética" da teoria do impacto é a pesquisadora Gerta Keller, da Universidade Princeton. Suas análises dos sedimentos da cratera de Chicxulub indicam que o impacto ocorreu 300 mil anos antes da extinção. "O impacto de Chicxulub não tem nada a ver com a extinção do KT", disse Keller ao Estado. O que matou mesmo os dinossauros, segundo ela, foi uma grande sequência de erupções vulcânicas ocorridas na região do planalto de Deccan, na Índia. Os gases e partículas lançados na atmosfera pelos vulcões teriam bloqueado a luz solar e alterado radicalmente o clima do planeta por um longo período, com um efeito semelhante ao descrito para o impacto de Chicxulub.

Keller acredita que só isso já seria suficiente para acabar com os dinossauros. Mas é provável que os efeitos dos vulcões tenham sido agravados pelo impacto de um outro asteroide, cuja cratera ainda não foi encontrada. O irídio detectado na camada do limite KT, segundo ela, seria desse outro asteroide, e não do de Chicxulub.

Para os autores da revisão na Science, as conclusões de Keller resultam de interpretações equivocadas. "Todas as evidências sugerem que o início da extinção em massa coincide exatamente com o momento do impacto de Chicxulub", disse Schulte ao Estado. "Enquanto as erupções violentas do Deccan começaram 400 mil anos antes, sem causar nenhuma catástrofe global." Também não há evidências de outros impactos significativos naquela época, completa ele. "Só pequenas crateras, cujo impacto teria tido repercussões apenas regionais."

Um outro asteroide do tamanho do de Chicxulub não deve atingir a Terra por pelo menos mais alguns milhões de anos. Tempo suficiente, quem sabe, para resolver o debate.

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