Radicalização e jantares

Um bom exemplo do uso de grandes quantidades de dados para fazer todo tipo de análise

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2018 | 03h00

É obvio que discussões políticas estragam reuniões familiares. O interessante é como um grupo de cientistas descobriu que, após a eleição de Trump, os jantares de Thanksgiving (O Dia de Ação de Graças americano), nas famílias em que existe discordância política, foram 38 minutos mais curtos que a média. Em 2016, na média, esses longos jantares duraram 4 horas e 28 minutos.

Nos Estados Unidos, o jantar de Thanksgiving ocorre sempre na 4.ª quinta-feira de novembro. Nesse dia, as pessoas se reúnem para comer o famoso peru assado. Essa tradição foi iniciada em 1621 e celebra o final da colheita, agradecendo a Deus pela boa safra que vai impedir a fome durante o inverno que se aproxima. Atualmente membros de uma mesma família viajam grandes distâncias para estarem juntos nesses dias e as aéreas vendem uma enorme quantidade de passagens para famílias que se reúnem na data.

Para determinar o efeito das discussões políticas sobre a duração do jantar, em 2016 os cientistas usaram duas fontes de dados. A primeira é um banco de dados que contém a posição exata (determinada pelo GPS) de 10 milhões de telefones celulares a cada minuto durante o mês de novembro de 2016. Esse banco de dados existe porque cada telefone celular, ao se comunicar com as torres do sistema de telecomunicação, envia sua posição exata. No total foram analisados 21 bilhões de posições enviadas por 10 milhões de telefones durante novembro. 

Esses dados, que não incluem o número do telefone, ou o nome do assinante, são fornecidos por várias empresas nos EUA. Analisando esses dados os cientistas puderam determinar o local em que esses 10 milhões de telefones “moram”, pois esse é o lugar onde passaram a maior parte das noites nas semanas anteriores ao Thanksgiving. Além disso, puderam identificar para onde se deslocaram na noite do jantar, pois eles enviaram às respectivas torres suas localizações precisas. Assim, se uma família tem membros em Nova York, Chicago e Los Angeles e essas pessoas se reuniram na casa da pessoa em Chicago para jantar, isso pode ser descoberto analisando a localização dos telefones ao longo do tempo. 

Mais que isso, é possível saber quanto tempo ficaram juntos durante o jantar, determinando o horário que eles chegaram à casa em Chicago e o horário que saíram. Dessa maneira os cientistas conseguiram determinar a residência de 6.390.634 pessoas e onde essas pessoas passaram o jantar de Thanksgiving. 

O segundo banco de dados que os cientistas usaram foi o resultado da votação de 8 de novembro de 2016, semanas antes do jantar de Thanksgiving, que elegeu Donald Trump. Esse banco de dados não contém o nome das pessoas que votaram, mas o número de votos que cada candidato recebeu em cada uma das 172.098 regiões eleitorais (precincts) em que os EUA são divididos. Cruzando esses dois bancos de dados os cientistas puderam determinar a probabilidade de como votou cada um dos 10 milhões de donos de telefones celulares analisados. Isso porque se uma pessoa mora em um distrito eleitoral onde Trump teve 95% dos votos essa pessoa muito provavelmente votou nele.

Com base nesses dados é possível identificar a provável ideologia de cada participante nos jantares de Thanks giving e, em um passo seguinte, identificar os jantares em que todos os participantes votaram no mesmo partido (Democrata ou Republicano) e os jantares em que participaram pessoas que haviam votado, semanas antes, em diferentes candidatos. Após identificar jantares em que todos eram muito provavelmente do mesmo partido e jantares em que as pessoas provavelmente eram de partidos diferentes, os cientistas determinaram quanto tempo duraram esses jantares. 

E aí veio a conclusão: os jantares em que havia pessoas de diferentes partidos foram 38 minutos mais curtos que a média (que foi de 257 minutos). Mas os cientistas foram adiante identificando os distritos eleitorais que foram mais bombardeados por anúncios políticos antes da eleição. Quando pessoas desses distritos se encontraram semanas depois da eleição, os jantares foram ainda mais curtos.

Esses resultados não só comprovam que discussões políticas encurtam jantares, mas são um bom exemplo do que hoje as pessoas chamam de Big Data: o uso de grandes quantidades de dados para fazer todo tipo de análise. Imagine agora o que poderia ser feito se os cientistas tivessem acesso não somente à localização dos telefones, mas ao nome e ao endereço dos donos de cada um dos 10 milhões de telefones. 

E se eles pudessem analisar o Facebook de cada uma dessas pessoas? Estudos como esses nos mostram, com um exemplo simples, o poder e os riscos de invasão de privacidade inerentes ao uso dessas novas tecnologias. Não é à toa que muitos estão preocupados.

MAIS INFORMAÇÕES: THE EFFECT OF PARTISANSHIP AND POLITICA ADVERTAISING ON CLOSE FAMILY TIES. SCIENCE VOL.360, PÁG.1.020 (2018)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.