Elise Stroemseng/Norwegian Polar Institute via AP
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Fernando Reinach
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Raposinha resistente

Agora resta saber o que vai haver com essas raposas com o aquecimento global

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2019 | 03h00

Em 26 de abril de 1885, já próximo do Polo Norte, o explorador Fridtjof Nansen saiu da barraca e levou um susto. Em volta da barraca encontrou pegadas de uma raposa do Ártico. Ele estava na latitude 85º Norte, no meio do nada. Registrou no diário: raposa perdida, vai morrer de fome. Estava errado. Agora cientistas noruegueses descobriram o que a raposa fazia por ali.

A raposa do Ártico (Vulpes lagopus) é do tamanho de um cão médio e sua pelagem negra chama a atenção sobre o gelo. Essa espécie pode ser encontrada no limite norte de quase todos os continentes, rodeando o círculo polar ártico, onde caça pequenos mamíferos e come sobras deixadas pelos ursos polares. 

O arquipélago de Svalbard, talvez o pedaço de terra firme mais ao norte do globo, fica acima da Islândia, entre Finlândia e Groenlândia. Lá que fica o repositório de sementes da biodiversidade vegetal e a estação experimental de Spitsbergen, onde cientistas corajosos têm estudado as raposas. Corajosos porque em Svalbard só é permitido passear com rifle, pois humanos são regularmente devorados por ursos polares que rondam os vilarejos congelados. 

Desde 2012, cientistas têm capturado exemplares de raposas do Ártico e posto nelas pequenos equipamentos de GPS, que usam um rádio para se comunicar com satélites, enviando uma vez por dia a posição exata da raposa. Já foram estudados 54 animais, mas conto a vocês o que houve com uma fêmea jovem na qual foi instalado o GPS em 1.º de março de 2018. A bateria do equipamento durou até 1.º de julho de 2018. No período em que foi monitorada, a raposa caminhou 4.415 quilômetros, a distância de Florianópolis a Manaus. Uma média de incríveis 46 quilômetros por dia no gelo. 

Ela saiu de Svalbard pelo Oeste em 26 de março e se dirigiu ao norte pelo gelo que cobria o oceano. Caminhou continuamente até 7 de abril, quando parou por um dia. Outra parada foi em 10 de abril, ambas no meio da calota polar perto do paralelo 85º. Seis dias depois, ela chegava a Groenlândia. 

Após outra incursão pelo gelo no norte da Groenlândia, ela cruzou novamente pelo oceano coberto de gelo para a Ilha de Ellesmere, Canadá, em 10 de junho. Quando o sinal foi perdido em 1.º de julho, ela já havia atravessado a ilha. Nos dias em que mais caminhou, a raposa andou 145 quilômetros. Em linha reta, o local de onde partiu dista 1.789 quilômetros de onde chegou.

Esses são os dados objetivos dessa fantástica caminhada, mas muitas questões estão em aberto. Como ela se alimentou nos três meses? O que bebeu? Estava só ou em grupo? Essas perguntas só poderão respondidas quando dados de outras raposas forem obtidos. Por ora, o que podemos concluir é que são capazes de longas migrações, beirando a calota polar.

Isso sugere que as populações nos vários países não são independentes, como se pensava, mas fazem parte de uma única população que migra e se mistura no topo do mundo. O explorador Fridtjof Nansen estava sofrendo, em 1885, quando viu os rastros das raposas. Mal sabia ele que eram os animais que estavam confortáveis ali perto do polo norte e ele é que corria perigo de vida. Agora resta saber o que vai haver com essas raposas com o aquecimento global e o degelo da calota polar.

MAIS INFORMAÇÕES: ARCTIC FOX DISPERSAL FROM SVALBARD TO CANADA: ONE FEMALE’S LONG RUN ACROSS SEA ICE. POLAR RESEARCH. VOL. 38. PAGE 3.512. 2019

*É BIÓLOGO

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