Livro Fernando Reinach/Reprodução
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Fernando Reinach
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Receita das crônicas

Descoberta não precisa ser a mais relevante. O importante é perceber a ciência em ação

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

10 Março 2018 | 01h00

Nunca imaginei que duraria tanto: 14 anos escrevendo a coluna. Esta tem o número 671, a primeira é de outubro de 2004. Um filho, dois netos e um enfarte depois, continuo fiel à minha receita original. As melhores colunas dos primeiros sete anos foram publicadas no livro A Longa Marcha do Grilos Canibais. Agora, nova seleção está no livro Folha de lótus, Escorregador de Mosquito, lançado essa semana. Acho que está na hora de revelar a vocês minha receita.

Os animais percebem o ambiente por meio do que é captado pelos sentidos. É a informação que o cérebro usa para mover o corpo. Com o surgimento da linguagem, nosso cérebro se tornou capaz de receber informações captadas por outros cérebros em outros locais e outros tempos. São as histórias contadas ao redor do fogo, as fofocas, experiências transmitidas oralmente de geração em geração. 

Com a escrita, essas informações puderam ser mantidas em livros, permitido a acumulação de informações produzidas por milhares de pessoas ao longo de muitas gerações. Nossa capacidade de sobreviver e reproduzir aumentou muito. Surgiram as primeiras cidades e a agricultura.

Mas logo percebemos que os sentidos enganam, as histórias e tradições orais são contaminadas pela imaginação e degradadas pela reprodução. Continuam lindas e sedutoras, mas deixam de informar diretamente sobre o mundo concreto. De certa maneira, se transformam em arte. 

A necessidade de algo mais confiável que a experiência direta levou ao surgimento do que hoje chamamos ciência. A lógica, a observação cuidadosa, os experimentos e a utilização da matemática tentam garantir a acumulação de conhecimentos, senão permanentes, pelo menos com uma capacidade maior de explicar e predizer o mundo em que vivemos. E, com a ciência, surge sua ferramenta de acumulação e descrição: o trabalho científico.

No trabalho científico, a preocupação maior não é com a descoberta propriamente dita, por mais excitante que seja. O foco está na descrição de como esse novo conhecimento foi obtido, a lógica, os experimentos e as observações. Essa preocupação é a alma da ciência: um novo conhecimento tem de ser aceito pelo leitor com base no relato de como ele foi obtido e não no simples fato de ter sido enunciado por um sábio. Os experimentos e os passos lógicos precisam ser descritos de modo que possam ser reproduzidos. E, se não forem passíveis de repetição, são abandonados e substituídos. 

A ciência funciona e a prova disso é que hoje temos telefones celulares, remédios e aviões.

O que sempre me incomodou na cobertura das descobertas científicas pela mídia é o foco na descoberta e não em como chegamos lá. Simplesmente relatando a conclusão, fica impossível ao leitor separar a afirmação de um cientista de uma feita por um charlatão. Sem entender como funciona a ciência, o leitor não se pergunta a origem de cada uma dessas afirmações ou quais experimentos justificam a afirmação. E sequer imagina que poderia repetir experimentos e verificar qual das afirmações é verdadeira. 

A ciência divulgada dessa maneira fica indistinguível de um boato, de uma crença religiosa ou de um palpite. A credibilidade passa a depender de quem afirmou e não da maneira que a informação foi obtida.

É por esse motivo que sigo minha receita. Toda semana procuro um trabalho científico usando alguns critérios. Ele precisa ser interessante. Precisa resultar em alguma conclusão pouco intuitiva, levando o leitor a estranhar a conclusão. Os experimentos e a lógica usada para chegar à conclusão precisam ser suficientemente simples para eu conseguir explicar em um texto curto. Finalmente, precisa mudar um pouco nossa percepção do mundo. 

Pouco me importo se a descoberta é a mais importante do mês. O importante é que os leitores percebam a ciência em ação. E o formato é o mesmo de trabalhos científicos: explico o problema, experimentos feitos, resultados obtidos e o que os cientistas concluíram. E no fim, em “mais informações”, conto exatamente qual trabalho científico usei para escrever a crônica. Essa é minha receita. Exige esforço, mas não muita criatividade.

* É biólogo

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