Jeffrey Anderson
Jeffrey Anderson

Religião ativa centros de recompensa do cérebro como sexo e drogas

Jovens da igreja mórmon foram submetidos a exames enquanto executavam tarefas relacionadas a conteúdos que evocavam sentimentos espirituais

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2016 | 16h18

As experiências religiosas e espirituais ativam os circuitos de recompensa do cérebro da mesma maneira que o amor, o sexo, o jogo, as drogas e a música, de acordo com um novo estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Utah (Estados Unidos) e publicado nesta terça-feira, 29, na revista científica Social Neuroscience. 

"Estamos apenas começando a entender como o cérebro toma parte em experiências que os crentes interpretam como espirituais, divinas ou transcendentes. Nos últimos poucos anos, as tecnologias de imagem cerebral amadureceram de maneiras que nos permitiram abordar questões que já perduravam por milênios", disse o neuro-radiologista Jeff Anderson, autor principal do estudo.

Para realizar a pesquisa, os cientistas utilizaram exames de imagem por ressonância magnética funcional (IRMf) a fim de investigar quais redes cerebrais estavam envolvidas com a representação de sentimentos espirituais em um grupo de jovens da igreja mórmon. 

De acordo com os autores, o experimento envolveu a criação de um ambiente capaz de fazer o grupo de religiosos "sentir o espírito". Segundo eles, esse "sentimento de paz e proximidade com Deus" tem importância fundamental na vida dos mórmons: eles tomam decisões com base nesses sentimentos, acreditam que eles são uma confirmação de seus princípios doutrinários e os enxergam como um meio de comunicação com o divino.

Os 19 participantes - 12 homens e sete mulheres que já foram missionários da igreja mórmon - foram submetido aos exames enquanto executavam quatro tarefas relacionadas a conteúdos que evocavam os sentimentos espirituais.

O exame foi realizado ao longo de uma hora, incluindo seis minutos de descanso, seis minutos de "controle audiovisual" - no qual os participantes assistiam um vídeo com detalhes estatísticos sobre os membros de sua Igreja -, oito minutos de audição de frases de líderes mórmons e de outras religiões, oito minutos de leitura de passagens familiares do Livro de Mórmon, 12 minutos de estímulos audiovisuais  (com vídeos de cenas de família, de passagens bíblicas e outros conteúdos religiosos) e, por fim, mais oito minutos de frases religiosas.

Enquanto a primeira parte de audição de frases era realizada, cada frase ouvida pelos participantes era seguida por uma mesma pergunta: "Você está sentindo o espírito?". As respostas eram registradas em uma escala que ia de "não estou sentindo" até "estou sentindo fortemente".

Depois de coletar os dados e realizar uma análise detalhada dos sentimentos dos participantes, os cientistas constataram que quase todos eles relataram ter experimentado sentimentos típicos de um intenso serviço de culto. Eles descreveram sentimentos de paz e uma sensação física de calor. Vários deles terminaram o exame em lágrimas.

Em um dos experimentos, os participantes também apertavam um botão quando acreditavam ter chegado a um pico de sentimento espiritual enquanto eram submetidos a estímulos relacionados à Igreja.

"Quando os participantes eram instruídos a pensar sobre um salvador, sobre estar com suas famílias por toda a eternidade e sobre suas recompensas celestiais, seus cérebros e corpos respondiam fisicamente", disse o autor principal do estudo, Michael Ferguson, da Universidade de Utah.

Com base nos resultados de IRMf, os cientistas descobriram que poderosos sentimentos espirituais estão claramente associados à ativação do "núcleo accumbens", uma região do cérebro que tem papel fundamental no processamento de recompensas e também é ativado por drogas, sexo e música, por exemplo. 

A atividade de pico ocorria de um a três segundos antes que os participantes apertassem o botão e ocorreu em cada uma das quatro tarefas. Quando eles experimentavam um pico de sentimentos espirituais, seus corações batiam mais rápido e a respiração se tornava mais profunda, de acordo com os autores.

Moral e atenção. Além dos circuitos de recompensa, os cientistas constataram que os sentimentos espirituais estavam também associados ao córtex medial pré-frontal, uma complexa região do cérebro que é ativada por tarefas que envolvem avaliação, julgamento e raciocínio moral. Os sentimentos espirituais também ativaram regiões do cérebro associadas à atenção focada.

"A experiência religiosa é possivelmente a parte que mais influencia como as pessoas tomam decisões que afetam a todos nós, para o bem e para o mal. Entender o que ocorre no cérebro para contribuir com essas decisões é extremamente importante", disse Anderson. 

Segundo Anderson, no entanto, não se sabe se fiéis de outras religiões responderiam da mesma maneira. De acordo com ele, trabalhos de outros autores sugerem que o cérebro responde de maneira bastante diferente às práticas de meditação e contemplação características de algumas religiões orientais, mas que pouco se sabe sobre a neurociência das práticas espirituais ocidentais.

A linha de estudo continuará: a pesquisa foi o primeiro resultado do Projeto Cérebro Religioso, lançado pelos cientistas da Universidade de Utah em 2014, com o objetivo de entender como o cérebro opera em pessoas com profundas crenças espirituais e religiosas.

 

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