Gerson Monteiro
Gerson Monteiro

Renúncia causa surpresa e solidariedade

Religiosos recebem notícia com espanto, mas destacam ‘humildade’ em ato de Bento XVI; estudiosos veem ‘nova característica do ofício’

Gerson Monteiro, especial para O Estado, Ocimara Balmant, Tiago Décimo e Agências Internacionais

11 Fevereiro 2013 | 22h02

A renúncia do papa Bento XVI foi recebida com surpresa pela própria Igreja Católica. Apesar do sobressalto, religiosas e representantes de governos de todo o mundo se manifestaram solidários à decisão.

Ao comentar o anúncio da renúncia ao cargo, d. Raymundo Damasceno, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), exaltou a humildade de Bento XVI. "Ao renunciar este cargo, ele não deixa de dar seu sinal de humildade. Ele não está apegado ao cargo. Sentindo suas limitações físicas, também de ordem de ânimo, de espírito, ele então renuncia diante das exigências deste cargo."

Em coletiva de imprensa em Aparecida, no interior de São Paulo, Damasceno confirmou a vinda do novo papa à Jornada Mundial da Juventude, a ser realizada no Rio no mês de julho.

O arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, d. Murilo Krieger, acredita que as pressões por causa de temas polêmicos podem ter influenciado na decisão. "Estive com ele em janeiro, no dia 9, e ele parecia disposto, apesar da idade. Para mim, foi uma grande surpresa, mas ele deve ter refletido e rezado muito para chegar a esta decisão. Acredito que foi um ato de honestidade."

Krieger avalia que, por causa da idade, o papa não conseguia mais enfrentar, com a intensidade necessária, as pressões sofridas pela Igreja em assuntos polêmicos, como união formal de homossexuais. "O cargo em si já é pesado e o mundo vive um período de turbulência", avalia.

Para o secretário-geral da CNBB, Leonardo Steiner, Bento XVI entrará para a história como o "papa do amor". "Ele muitas vezes falou da civilização do amor, falou aos jovens da necessidade de amar, de testemunhar a fé como caridade, como amor."

O cardeal d. Paulo Evaristo Arns também se surpreendeu com o anúncio da renúncia, mas preferiu não comentar. Ele afirmou apenas que iria rezar por Bento XVI e pela Igreja.

Motivos. Para Pablo Blanco, teólogo da Universidade de Navarra e especialista na obra da Joseph Ratzinger, a renúncia reflete o próprio pensamento do papa Bento XVI. "Ele sempre pregou que a igreja não depende de uma só uma pessoa. Durante todo o seu pontificado, governou em comunhão com outros bispos. Logo, deixar a missão para outro com o mesmo comprometimento e mais vigor físico é coerente com seus pensamentos."

A questão do vigor físico deve influenciar na escolha do próximo pontífice, acredita o padre Clodovis Boff, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Desta vez, a escolha tende a recair sobre alguém mais jovem.

"É uma nova característica do ofício. Porque antigamente os papas quase nem saíam de Roma. Isso mudou desde que João Paulo II assumiu o pontificado e viajou o mundo todo", afirma. A diferença, acrescenta, é que João Paulo II tinha 58 anos ao se tornar papa, 20 a menos do que Bento XVI ao ser eleito, em 2005. "Ele cumpriu a agenda enquanto conseguiu, mas já não tem forças para cumprir essas novas demandas".

O professor Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, explica que a renúncia de Bento XVI terá efeitos a curto e a longo prazo. A longo prazo, acredita, é uma ação decisiva para a reformulação da estrutura interna da igreja. "A renúncia quebra a aura de excepcionalidade da figura do papa, o que trará uma mudança na forma como o núcleo duro da Igreja se enxerga e como vê o poder hierárquico."

A curto prazo, diz Ribeiro, a renúncia trará à tona a especulação sobre a linha teológica do sucessor, se será progressista ou conservadora. "Mas uma coisa é certa: se a influência na escolha do sucessor funciona até quando o papa anterior já morreu, imagine quando continua vivo. Mesmo fora do conclave, Bento XVI será seu maior e principal eleitor."

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