Reprogramação de células é o avanço do ano da Science

Em segundo lugar ficou a descoberta e observação de planetas localizados fora do sistema Solar

Giovana Girardi, de O Estado de S. Paulo,

18 de dezembro de 2008 | 17h19

A possibilidade de reprogramar células comuns do corpo, induzindo-as a assumir um comportamento semelhante ao de células-tronco, foi considerado o principal avanço da ciência mundial em 2008, de acordo com a revista Science. Em sua tradicional lista que traz as dez áreas mais promissoras do ano, a publicação considerou que os trabalhos com reprogramação celular oferecem ferramentas para compreender melhor os mecanismos que levam ao surgimento de doenças como Parkinson, abrindo espaço para a descoberta de novos tratamentos.   Pesquisa converte célula da pele de paciente com esclerose em neurônio Descobertos mais quatro planetas fora do Sistema Solar Galeria de fotos: Science 2008     Essa linha de estudo teve início em 2006, quando cientistas japoneses, ao introduzirem quatro genes em células da cauda de camundongos, fizeram com que elas se parecesse e agissem de modo muito semelhante a células-tronco embrionárias (CTE), que têm a capacidade de se diferenciar em qualquer outra célula do corpo. No final do ano passado, cientistas americanos e japoneses alcançaram esse mesmo resultado com células da pele humana, induzindo nelas a tão desejada pluripotência (versatilidade) das CTEs.    O trabalho levantou a possibilidade de que as chamadas iPS (células-tronco de pluripotência induzida) poderiam ser uma alternativa às células-tronco embrionárias. Por sua habilidade, as CTEs são as queridinhas dos cientistas, que trabalham com a possibilidade de usá-las para o tratamento, por exemplo, de doenças degenerativas. O problema é que sua aplicação esbarra em questões éticas, visto que para serem extraídas é preciso destruir os embriões. A nova técnica resolve esse dilema, mas não elimina a necessidade de mais estudos com células-tronco embrionárias para que se entenda exatamente como elas se diferenciam antes que se possa imitá-las perfeitamente.    Neste ano foi dado outro salto. Pesquisadores americanos transformaram células da pele de pacientes com esclerose lateral amiotrófica (doença neurodegenerativa cujo paciente mais famoso é o físico Stephen Hawking) em iPS. E depois induziram sua diferenciação em neurônios motores, como os que são destruídos pela doença.    Pesquisadores que trabalham com a área consideraram que sua classificação como "avanço do ano" é merecida por trazer mesmo muitas possibilidades para o futuro. "Confesso que quando saíram os primeiros estudos em 2006 fiquei meio cética, parecia bom demais, e ainda estava servindo para justificar o não-uso de CTEs, o que não é real. Mas nesses dois anos ela se consolidou com uma rapidez incrível", diz a pesquisadora Lygia da Veiga Pereira, da USP, que está tentando derivar essas células no Brasil. Ela acredita, no entanto, que para virar um tratamento ainda é necessário superar muitas dificuldades e que antes disso as iPS devem ajudar a entender muitas doenças. Ao transformar a célula de um paciente com esclerose lateral amiotrófica em neurônio é possível observar a evolução da doença.    A geneticista Mayana Zatz, também da USP, espera entender por que pessoas que têm uma mesma mutação às vezes não apresentam a mesma doença. "Comparando as células iPS de pacientes discordantes podemos compreender isso", diz. Ela também acredita que será possível testar drogras nessas linhagens sem que se use o paciente como cobaia.    "Com isso teremos o modelo de uma doença dentro do tudo de ensaio, onde poderemos avaliar sua evolução na célula", concorda Dimas Tadeu Covas, pesquisador da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão. Ele promete para o começo do ano o lançamento da primeira linhagem brasileira de iPS.   Alterada às 21h29 para acréscimo de informações

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