Resíduos do Tietê jogados em lagoa são analisados

A Secretaria Estadual do Meio Ambiente de São Paulo (SMA) deverá apresentar, dentro de dez dias, os resultados da segunda análise do solo da lagoa de Carapicuíba, na Região Metropolitana de São Paulo, onde estão sendo depositados os cerca de 7 milhões de metros cúbicos de resíduos da obra de rebaixamento da calha do rio Tietê.A decisão de fazer uma nova verificação foi tomada depois de um protesto, realizado no último dia 21 de março, quando membros da comunidade e ambientalistas denunciaram a contaminação dos resíduos com metais pesados e jogaram lama das obras em frente à sede da secretaria. Segundo o coordenador da Licenciamento Ambiental e de Proteção de Recursos Naturais da SMA, João Antonio Fuzaro, durante reunião com representantes da comunidade e da comissão de vereadores de Carapicuíba para acompanhamento das obras, a Secretaria se comprometeu também a realizar um laudo independente das amostras.?Nesta semana, o Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE), responsável pela obra, concordou em pagar a análise e estamos aguardando o orçamento do Instituto de Ciência e Tecnologia em Resíduos e Desenvolvimento Sustentável (ICTR), da Universidade de São Paulo, indicado pelos participantes da reunião. Caso eles não possam fazer o teste, enviaremos ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Queremos resolver essa questão de vez?, disse.DossiêUm dossiê sobre problemas ambientais nas obras de despoluição e rebaixamento da calha do rio Tietê foi entregue hoje pelo Movimento Grito das Águas, ao professor Masaru Emoto, especialista em águas japonês, durante palestra na Assembléia Legislativa de São Paulo. O ativista deverá encaminhar o documento ao Japan Bank International Cooperation (JBIC), que financia as obras de rebaixamento.O documento é um dos resultados do Fórum Social das Águas, realizado em março, em São Paulo, por uma rede de organizações não-governamentais ligadas a recursos hídricos. No dossiê, os ambientalistas alegam não haver garantias de que sedimentos contaminados com metais pesados (chumbo, ferro e manganês, conforme o Estudo de Impacto Ambiental do empreendimento), não estão sendo depositados pelos mil caminhões, que carregam os resíduos diariamente para a lagoa.Citam ainda um laudo do Instituto Ambiental 21, laboratório de Santa Catarina, que mostra a presença destes contaminantes na lagoa de Carapicuíba. Segundo o coordenador geral do Grito das Águas, Leonardo Morelli, o documento enviado ao banco japonês solicita a suspensão dos recursos destinados ao governo de São Paulo, enquanto não sejam tomadas providências.ContraprovaO coordenador de Licenciamento Ambiental da Secretaria, no entanto, afirma que os resultados da primeira amostragem analisada pela Companhia de Tecnologia em Saneamento Ambiental (Cetesb), no fim do ano passado, depois das primeiras denúncias, ?não apresentaram nada que levasse ao estado de alerta, pois encontramos apenas substâncias típicas da bacia do Tietê?.Conforme Fuzaro, não é possível fiscalizar cada caminhão de sedimentos e, por isso, a melhor forma é realizar a amostragem diretamente na lagoa. ?As críticas ao projeto acontecem, sobretudo, por ser um projeto governamental. Mas a Secretaria licencia igualmente todo tipo de empreendimento. O que não podemos é penalizar alguém, sem que nada de errado tenha sido comprovado?.Segundo Fuzaro, o licenciamento prevê que os resíduos inertes (restos de rocha e solo), correspondendo a 95% do total, podem ser despejados na lagoa. Os 5% restantes, também resíduos inertes, mas com presença de ferro, alumínio e manganês, devem ser encaminhados para aterros licenciados, e a parte com presença de chumbo, a mais problemática, deve ir para um aterro industrial.?Os resultados das análises, sejam quais forem, serão disponibilizados nos próximos dias. Se houver necessidade de medidas mitigadoras e penalização ao empreendedor, serão encaminhadas ao DAEE?.Lagoa polêmicaA lagoa de Carapicuiba é, na verdade, uma alverca - lago artificial feito por escavações antrópicas - comprometida por várias fontes de poluição difusa. O local, entre os municípios de Barueri e Carapicuiba, era o antigo leito do rio Tietê, desviado com um dique, e que virou uma grande cava de mineração, depois preenchida com a água do rio.Segundo João Fuzaro, atualmente uma parte pertence ao DAEE e outra a algumas mineradoras, que continuam a extrair areia do local. Além disso, a lagoa recebe parte do esgoto de Carapicuíba e fica ao lado do lixão da cidade que, apesar de estar fechado há mais de um ano, continua a percolar (soltar líquidos contaminados) no local.Uma das reivindicações dos moradores é transformar a área em um parque, proposta já aprovada pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema). Para tanto, uma das condições é a recuperação da lagoa, que precisa ter sua extensão e profundidade reduzidas. Segundo a SMA, esse seria um dos motivos para a deposição dos sedimentos do Tietê no local. Para os ambientalistas, essa é a principal razão para evitar a mesma deposição.

Agencia Estado,

11 de abril de 2003 | 18h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.