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Resistentes ao HIV

O fato é que aparentemente é possível alterar o genoma de embriões para criar resistência

Fernando Reinach *, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2019 | 03h00

Quando a epidemia de aids surgiu, por volta de 1980, não existiam drogas capazes de controlar o vírus. Contrair o HIV era praticamente uma sentença de morte. A doença apareceu primeiro em grupos de pessoas com alto número de parceiros sexuais, como comunidades promíscuas de homossexuais e prostitutas. Logo nos primeiros anos, os epidemiologistas descobriram que nessas comunidades havia um pequeno número de pessoas que, apesar de terem dezenas ou centenas de parceiros sexuais todos os anos, não contraíam a doença. Parecia que uma fração da humanidade era resistente ao vírus.

Descobrir por que essas pessoas são resistentes ao HIV era extremamente importante. Para entrar nas células, o HIV se liga a uma proteína que se chama CCR5. O que os cientistas acabaram descobrindo é que as pessoas resistentes ao vírus têm um pedaço do gene da proteína CCR5 faltando. São 32 aminoácidos a menos, o suficiente para que a CCR5 fique na membrana da célula. Sem a proteína, o vírus não entra e não se reproduz. Na Europa aproximadamente 10% da população tem as duas cópias do CCR5 alteradas (CCR5?32/?32) e, portanto, são resistentes ao vírus (apesar de existirem cepas do HIV que usam outra proteína para entrar na célula e, portanto, essas pessoas não podem descuidar).

A prova final de que um CCR5?32/?32 protegia a pessoa do HIV foi obtida faz dez anos quando um paciente positivo para o HIV apareceu com leucemia. Esse paciente fez um transplante de medula e, surpresa geral, o vírus HIV desapareceu. Era a primeira pessoa que havia sido curada. Quando os cientistas foram examinar a medula que havia sido transplantada no corpo desse paciente, descobriram que o doador era CCR5?32/?32, uma pessoa resistente ao HIV. Essa nova medula saudável não só curou o paciente da leucemia, mas liquidou com o vírus. Duas doenças curadas com um único transplante. Infelizmente essa técnica não pode ser usada para tratar muitos pacientes, pois um transplante de medula envolve muitos riscos – na verdade, maiores que os envolvidos no uso contínuo dos antirretrovirais, e só se justifica quando a pessoa está com leucemia. Mas será que esse era um caso único? Essa semana foi publicado um trabalho em que esse feito foi repetido em um paciente inglês. E com o mesmo resultado. A nova medula CCR5?32/?32 recebida por esse segundo paciente o livrou da leucemia e do HIV. O truque funciona.

Mas, se funciona, não seria uma boa ideia modificar todas as pessoas para que elas fiquem resistentes ao HIV? Foi essa a ideia de um cientista chinês. Em 2018, ele pegou dois óvulos recém- fecundados e com um truque genético transformou as duas cópias do gene CCR5 em CCR5?32. Aí ele pegou esses embriões e implantou no útero de uma mulher, como se faz em todos os procedimentos de fecundação in vitro. Tiro e queda, nasceram duas meninas aparentemente saudáveis. Quando o genoma delas foi sequenciado, demonstrou-se que eram CCR5?32/?32, portanto resistentes à aids. Escrito assim, você pode até pensar que foi uma boa ideia, mas o fato é que o cientista foi suspenso da universidade, processado e talvez tenha de cumprir tempo na prisão. O trabalho nunca foi publicado, mas quem viu os dados diz que estão corretos.

O cientista foi condenado por toda a comunidade científica pois construiu os primeiros seres humanos com a linhagem germinativa geneticamente modificada (os filhos dessas meninas vão herdar o CCR5?32). O genoma dessas meninas foi alterado artificialmente, assim como alteramos o da soja e do milho. Acontece que existe um acordo global que proíbe a modificação de seres humanos. Além disso, o cientista fez a experiência sem autorização do comitê de ética da universidade e aparentemente falsificou documentos. Ele está frito, e com razão.

Mas vamos esquecer por um momento a desonestidade desse cientista. O fato é que aparentemente é possível alterar o genoma de embriões e tornar as pessoas resistentes ao HIV. É claro que fazer isso de maneira ilegal, sem as aprovações necessárias, e colocando em risco a vida dessas crianças, é horrível. Mas foi feito. Agora eu pergunto a você: o experimento foi feito ilegalmente, mas as duas meninas existem de fato. Você acha que os dados desse experimento ilegal devem ser publicados e avaliados pela comunidade científica ou devem ficar fora dos registros da ciência, como se o experimento nunca tivesse sido feito?

MAIS INFORMAÇÕES:HIV-1 REMISSION FOLLOWING CCR5?32/?32 HAEMATOPOIETIC STEM-CELL TRANSPLANTATION. NATURE doi:10.1038/s41586-019-1027-4 (2019)

* É BIÓLOGO

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