Retirada de mogno segue esquema de tráfico, diz PF

A Polícia Federal identificou esta semana, no Pará, duas quadrilhas especializadas em extração e exportação ilegal de mogno do Brasil para o exterior. O esquema utilizado pelo grupo é semelhante ao dos narcotraficantes, inclusive com aliciamento de moradores da floresta e até com um pequeno exército de seguranças que dão proteção durante a retirada de árvores. A quadrilha atua no sul do Estado, mas há ramificação no Sudeste do País. Segundo delegados da PF que estão fazendo a investigação, que será concentrada em Brasília e Belém, há suspeita da existência de outras quadrilhas, que podem estar atuando em conjunto e com a mesma finalidade: a exportação ilegal de mogno, principalmente para a Europa e Estados Unidos. "Dois desses grupos, pelo menos, estão identificados e confirmados como criminosos ambientais", afirma o delegado Jorge Pontes, da coordenação de Crimes Ambientais da PF. O que mais espantou os investigadores foi a forma como as duas quadrilhas vêm atuando, inclusive usando métodos semelhantes aos do crime organizado. Elas usam empresas fantasmas para ludibriar os fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), falsificam notas de exportação, fazem lavagem de dinheiro das exportações ilegais em outros tipos de negócios e terceirizam a atividade ilegal. Segundo um policial do setor de inteligência da PF, há várias informações de que grupos armados, formando verdadeiras milícias, estão espalhados pela floresta para dar proteção a trabalhadores que estão retirando mogno em áreas de preservação e em terras indígenas. "Não há muita diferença com o crime organizado que atua no narcotráfico", observa o policial. Um dos métodos é justamente o aliciamento de trabalhadores e moradores da floresta, principalmente no sul do Pará e Acre, onde ainda estão as maiores concentrações de mogno no País. Seringueiros e ribeirinhos muitas vezes trocam uma árvore de mogno por um quilo de sal, uma lata de óleo ou até mesmo uma lata de leite em pó. "Há uma dificuldade enorme, em alguns locais da Amazônia, de ter este tipo de gêneros, o que torna a troca fácil", afirma o policial. O aliciamento também é feito em torno dos índios, que são atraídos pelos madeireiros em troca de outros bens de consumo, como bicicletas e motos, além dos gêneros alimentícios. Na região da Transamazônica, no Pará, a PF, Fundação Nacional do Índio (Funai) e Ibama, chegaram a identificar um grupo de índios jovens que viajaram por várias capitais brasileiras custeados pelos madeireiros. A árvore de mogno, que sai quase de graça da floresta, chega ao mercado internacional a mais de US$ 800 o metro cúbico.

Agencia Estado,

08 de fevereiro de 2002 | 11h00

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