Retórica política ameaça conferência

Yvo de Boer, diretor executivo da última conferência da ONU sobre mudanças climáticas, sublinha falta de sintonia entre negociadores

Luciana Nunes Leal, do Rio,

14 Junho 2012 | 22h30

 Ex-diretor-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, o austríaco Yvo de Boer afirmou ontem que a falta de sintonia entre os chefes de Estado e os negociadores das conferências internacionais impede o avanço dos acordos. Para ele, a retórica dos políticos “está atrapalhando as ações” de combate aos danos ambientais. De Boer cobrou dos governantes posições claras sobre a economia verde.

A Convenção-Quadro foi criada durante a Rio-92 com o objetivo de unir países no esforço de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e é considerada o primeiro grande passo de discussão das mudanças climáticas.

De Boer disse ter péssimas lembranças da Convenção do Clima em Copenhague, em 2009. “Foi uma terrível experiência. Ficamos durante 14 horas em uma sala com os presidentes Lula, Obama, Sarkozy, da China, da Índia, de Maldivas, de países que representavam os interesses do petróleo. O presidente de Maldivas lutava pelo limite de aquecimento de 1,5 grau Celsius, mas teve de aceitar 2 graus, foi o melhor que conseguiu. Lula dizia que o Brasil precisava de uma meta de redução de emissão de gases de efeito estufa. Mas entre os negociadores, a situação era totalmente diferente. Eles se apegavam a questões menores, promessas eram quebradas. E a urgência da mudança climática evaporou”, contou.

O ambientalista defende a formação de um grupo de países líderes que estabeleçam marcos legais de redução dos danos ao meio ambiente e punições para os abusos. “Precisamos de uma política clara, não um documento de 200 páginas”, afirmou. O austríaco cobrou também “uma afirmação aberta de que a preocupação em relação aos países mais pobres é a erradicação da pobreza e o crescimento econômico e a comunidade internacional precisa ajudar”.

 

Ênfase. No mesmo encontro, na sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), o ex-ministro do Meio Ambiente da França Brice Lalonde, coordenador executivo da Rio+20, disse que é preciso “criar políticas planetárias” para conter as mudanças climáticas.

“Ouvi de cientistas do Polo Ártico que a temperatura vai aumentar de 5 a 8 graus Celsius até 2100. Não sei se está confirmado, mas vejam a diferença”, afirmou Lelonde, em referência à meta dos países de limitar em 2 graus o aumento das temperaturas globais neste século.

Secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, o físico Luiz Pinguelli Rosa criticou a “falta de ênfase” das mudanças climáticas nas conferências internacionais, inclusive a Rio+20. “É um problema muito sério e as providências no mundo todo caminham a passos muito lentos”, afirmou.

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