Rhodia impede técnicos ambientais de vistoriarem fábrica

Três representantes de entidades ambientalistas junto ao Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema) - Carlos Bocuhy (São Paulo), Márcia Corrêa (Campinas) e Paulo Figueiredo (Piracicaba) -, dois técnicos da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e jornalistas deveriam ter vistoriado nesta sexta-feira a antiga fábrica da Rhodia, em Rafard, no interior do Estado de São Paulo, cujo solo foi contaminado por fenóis.Mas o advogado da empresa, Riquio Uemura, não autorizou a entrada do grupo sob a alegação de estar "preservando a integridade da área para investigações relacionadas ao inquérito civil, aberto nesta quinta-feira, 24 de abril, pelo Ministério Público (MP) na comarca de Capivari (à qual pertence Rafard)". A fábrica produzia um aditivo para solubilizar lubrificantes - furfural - a partir de bagaço de cana, utilizando ácido sulfúrico, ferro e manganês no processo. As atividades foram encerradas em 1990, por motivos econômicos, mas o passivo ambiental foi objeto de um Termo de Ajustamento de Conduta com o MP, em 1996, e a área entrou na lista de zonas contaminadas, elaborada pela Cetesb em 1999 (e divulgada ao público apenas em 2002).Conforme esclarecimentos prestados pelo diretor de comunicações da Rhodia, Eduardo Octaviano, na porta da antiga fábrica apenas os resíduos de fenóis permanecem no solo, não tendo sido detectados nem sulfatos (derivados do ácido sulfúrico) nem metais pesados. "A pluma de contaminação está contida no terreno da fábrica e está biodegradando naturalmente", afirma Octaviano.Os fenóis são compostos de carbono, oxigênio e hidrogênio, solúveis em água. Conforme perfil publicado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), podem causar danos à saúde se inalados, ingeridos ou quando em contato com a pele. A intoxicação crônica ocupacional, ou seja, dos trabalhadores que lidavam diretamente com o produto, pode prejudicar o fígado e rins. A neutralização, em casos de derramamento, é feita com soda cáustica.A Rhodia instalou 20 poços de monitoramento, de 10 metros de profundidade, para monitorar a pluma de contaminantes, que se move lentamente dentro do solo, acompanhando a água superficial. A proposta da empresa é manter apenas o monitoramento, sem intervir na biodegradação natural, a menos que a pluma de contaminantes saia da área da empresa e se aproxime do Rio Capivari, distante um quilômetro dali. "A Cetesb quer uma análise de risco, para saber se isso é suficiente, e uma estimativa do tempo necessário para esta biodegradação natural, prazo em que se manteria o monitoramento", comentou Hélio Ungari, gerente da agência ambiental da Cetesb em Campinas. De acordo com ele, a pluma contida no terreno da fábrica não ameaça a água de abastecimento da cidade e não há uso direto, em chácaras ou casas, num raio de 2 quilômetros em torno da fábrica.Duas outras áreas em Rafard continham rejeitos da mesma fábrica. Num deles, o Sítio São Bernardo, onde eram armazenados os resíduos de bagaço de cana após processamento, foi tudo removido, e a vegetação nativa já se recupera, segundo o representante da Rhodia. "As duas nascentes locais, que estavam ´abafadas´, restabeleceram a normalidade e não estão contaminadas", diz Octaviano. Sobre a terceira área, vendida a terceiros e hoje chamada Fazenda Saltinho, o representante da empresa se absteve de comentar.A área é contígua à antiga fábrica e abrigava cinco lagoas de tratamento de efluentes líquidos, cujo conteúdo foi esgotado. As lagoas estão preenchidas com terra e sobre elas atualmente há plantações de cana-de-açúcar.O representante da Cetesb afirmou ter conhecimento de algumas dessas lagoas, mas ignorava um dos locais apontados por um antigo funcionário da Rhodia, Paulo Roberto de Campos, chefe de manutenção e produção da fábrica até 1988. Na próxima semana, o órgão público deve buscar informações sobre as áreas apontadas e pode pedir novas análises, para detectar a presença de contaminantes.O deputado federal Luciano Zina (PT-SP), da Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias, pretende requerer, em curto prazo, uma audiência pública para esclarecimentos sobre o caso, com a presença de representantes da Rhodia e do Consema.

Agencia Estado,

25 de abril de 2003 | 17h56

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