Ribeirinhos da Amazônia discutem problemas ambientais

Isaltino Viana, conhecido como ?seu? Zazá, tem 57 e cresceu comendo pirarucu, tracajá e peixe boi, trazidos por seu pai, que era pescador no Lago de Canaçari, no estado do Amazonas. Hoje, apesar de ainda viver em uma das comunidades ribeirinhas da região, ele trabalha na roça e cria porcos e patos. Mesmo em meio à abundância de água que o cerca, pescar é apenas lazer, já que espécies nobres, como o pirarucu e o tambaqui, diz não encontrar há quatro anos.?Aqui se pescava muito peixe e a maior parte era vendida para o Pará, principalmente a produção de pirarucu. Meu pai chegava a trazer de cinco a oito pirarucus em um só dia e, às vezes, até dois peixes bois, que repartia com os vizinhos. Naquela época, eram apenas os pescadores locais, que usavam caniço, flecha, astia (arpão) e tarrafa. Agora são os barcos de fora, que usam arrastão, malhadeira e tarrafa. A quantidade de peixe diminuiu muito, principalmente porque nesta parte do Lago não existe nenhuma reserva?, conta Zazá.Preocupado com a situação da pesca e à procura de oportunidades que garantam a sobrevivência da família, o agricultor é um dos articuladores da visita da Caravana Mergulhão à sua comunidade, Nossa Senhora do Carmo, no Igarapé da Eva, em Silves. No domingo, dia 15 de junho, a equipe da Caravana fez a sua segunda visita ao local, com o objetivo de discutir agricultura e pecuária, tema escolhido pelas próprias famílias, durante o primeiro encontro, realizado semanas antes.Para receber a Caravana, formada por cerca de dez pessoas, entre técnicos e voluntários da Associação de Silves pela Preservação Ambiental e Cultura (Aspac) e do WWF-Brasil, parceiro no projeto, os moradores vestiram ?roupas de domingo? e prepararam um almoço comunitário. A família toda participou do encontro, realizado no centro social da comunidade, incluindo as crianças. Enquanto as maiores saíram para as atividades mirins, as de colo permaneceram com os pais.O clima festivo, porém, era apenas aparente. Já no começo da reunião, após a introdução feita por Vicente Neves, um dos coordenadores da Aspac, alguns comunitários pediram esclarecimentos sobre o projeto. Queriam saber quem financia o projeto, se terão que pagar alguma coisa, se o governo tem alguma coisa a ver com isso, qual o interesse de gente de fora na região... Na prática, queixam-se do abandono oficial e temem perder suas terras.?Não temos política agrícola e só podemos plantar em 20% de nossas terras. Além disso, não podemos queimar nem temos acesso à máquinas. Enquanto isso, a Petrobrás construiu uma estrada e perfurou por meses a 800 metros do Igarapé Açu, prejudicando a qualidade da água no local, que está sem condições de beber?, disse Getúlio de Souza. Maura Campanili/AEAs crianças também participam das atividades da Caravana Mergulhão, como nesta da comunidade Nossa Senhora do Carmo, no Igarapé da EvaDepois de muita discussão e esclarecimentos, Adomiram Lira, um dos líderes locais, mostra o mapa da comunidade preparado por ele, mostrando onde plantam, onde criam gado e as matas que preservam. A partir do desenho, os especialistas em agricultura orgânica da Aspac conseguem mostrar aos moradores que técnicas de permacultura, que prevêem o plantio sempre no mesmo local - ao invés de queimar para abrir novas espaços - poderiam facilitar o trabalho, com as roças instaladas mais perto das casas. Além disso, tentam convencê-los de que se tiverem viveiros e produzirem a comida necessária, o que conseguirem a mais representará um aumento de renda, já que a alimentação é a maior fonte de gastos locais.A apresentação dos desenhos e músicas ensaiadas pelas crianças, que participaram de atividades especialmente destinadas a elas, e a confraternização do final deixam o clima amigável. A continuidade da participação da Nossa Senhora do Carmo na Caravana Mergulhão, que deveria ser votada pelos moradores, porém, ficou para ser decidida depois.

Agencia Estado,

26 de junho de 2003 | 09h32

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