Ritual caiapó na despedida de Villas Boas

A cerimônia de despedida do indigenista Orlando Villas Boas realizada nesta sexta-feira em São Paulo não poderia ter sido mais apropriada: em torno do caixão, momentos antes do enterro no Cemitério do Morumby, zona sul, três velhos caciques caiapós entoaram a música indígena preferida do amigo kubé (branco), conforme uma tradição da etnia.Em seguida, Raoni, seu sobrinho Megaron, e Bepkum, todos da região do Xingu, se deixaram levar por um choro copioso - manifestação que também faz parte do ritual fúnebre dos caiapós sempre que algum amigo ou parente morre ou deixa a aldeia.Villas Boas já havia deixado as aldeias há anos, mas continuava sendo uma figura quase venerada por antigos líderes que conviveram com ele durante 30 anos de Xingu. "Quem tinha mesma idade, chamava ele de ikamy (irmão). Os mais novos, de jiuná (pai). E as crianças de netwá (avô). Agora nós perdeu ele", disse Megaron - em seu português aprendido há anos com o próprio Villas Boas."As lideranças mais antigas sempre creditaram a unidade entre os povos do Xingu ao Orlando", disse o médico sanitarista Douglas Rodrigues, coordenador do Projeto Xingu, da Universidade Federal de São Paulo, que desde 1965 presta assistência médica à região.O enterro de Villas Boas ocorreu às 16 horas com uma cerimônia simples que contou com a presença de cerca de 50 pessoas entre familiares, amigos, antropólogos, indigenistas e dos caciques. O presidente da Funai, Artur Nobre Mendes, também estava presente. Segundo ele, muitos índios gostariam de ter vindo ao enterro, mas não houve tempo de trazê-los.O corpo do indigenista havia sido velado com honras militares no hall monumental da Assembléia Legislativa de São Paulo. Centenas de pessoas foram prestar sua homenagem. No início da tarde, foi a vez do senador José Serra (PSDB) e do governador Geraldo Alckmin "Ele recriou a figura do bandeirante com o mesmo vigor e coragem, mas agora lutando pela paz e pela proteção dos índios", disse Alckmin.O caixão de Villas Boas foi levado em um caminhão de bombeiros, seguindo por um longo cortejo de carros. "Esse deve ser o funeral mais significativo para o cenário indígena desde a morte do (marechal Cândido) Rondon", disse a antropóloga inglesa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Wanessa Lea, que desde 1977 trabalha no Xingu. Rondon morreu na década de 60.Nesta sexata-feira, apesar da tristeza, velhos companheiros lembravam as histórias de Villas Boas. O indigenista Porfírio Carvalho, 57 anos, lembrou a que para ele foi a melhor de todas. "A história mais interessante de Villas Boas era a própria história dele. Um jovem paulista que se embrenha na mata. É essa história que termina agora."

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