Ruído eletromagnético desorienta pássaros

Nós vivemos envoltos em uma infinidade de ondas eletromagnéticas. Basta você ligar um rádio, uma máquina capaz de transformar uma parte dessas ondas em sons, para você perceber o que nos cerca. Mas não são somente as ondas de rádio. São as ondas eletromagnéticas emitidas pelos fios elétricos, pelos celulares, pelas redes wireless, e por todos os equipamentos eletrônicos com que convivemos.

Fernando Reinach,

30 Maio 2014 | 18h38

Vira e mexe estas ondas invisíveis causam alarme. Celulares provocam câncer? Redes de alta tensão são prejudiciais à saúde? Ano após ano os cientistas investigam e tentam repetir cada um dos inúmeros experimentos que sugerem que as ondas eletromagnética causam danos à saúde. E até agora nunca conseguiram demonstrar que os níveis permitidos de ruído eletromagnético são prejudiciais à saúde humana.

Mas agora um estudo cuidadoso finalmente demonstrou um efeito nocivo destas ondas em um ser vivo. Elas alteram a bússola magnética que ajuda os pássaros migratórios a se orientar durante o voo. Faz mais de 50 anos que sabemos que pássaros migratórios decolam já na direção em que desejam migrar. Se um pássaro vai migrar em direção ao norte ele alça voo apontando para o norte. Isso foi demonstrado inúmeras vezes usando um experimento muito simples. Os pássaros são colocados em ambientes circulares, de onde não podem ver o sol ou as estrelas. Na parede deste ambiente é colocado um papel sensível ao toque. Ao decolar o pássaro acaba encostando neste papel e deixando uma marca. Se os pássaros vão migrar para o norte, o trecho do papel que esta na face norte do ambiente circular recebe a grande maioria dos arranhões. Analisando a posição destes arranhões os cientistas determinam em que direção o pássaro deseja ir.

Foi com este tipo de experimento que se descobriu que pássaros migratórios possuem uma bússola interna capaz de sentir o campo eletromagnético da Terra. É essa bússola que eles usam durante a migração (os pássaros também usam o sol e as estrelas, mas em dias e noites encobertos é a bússola magnética que manda).

Em 2004 cientistas da Universidade de Oldenburg, na Alemanha, começaram a ter problemas ao repetir este experimento nas aulas práticas que ministravam para seus alunos. Os pássaros eram colocados nos recipientes circulares e, ao invés do resultado clássico, em que os pássaros tentavam decolar em direção ao norte, pareciam decolar em todas as direções.

Como as cabanas em que os experimentos estavam sendo feitos estavam no câmpus da universidade, no centro da cidade, os professores decidiram colocar na parede interna das cabanas estruturas metálicas (chamadas de gaiolas de Faraday) aterradas como para-raios. Estas estruturas reduzem em mais de 99% as ondas eletromagnéticas no interior da cabana. Os pássaros voltaram a decolar em direção ao norte.

Intrigados, eles resolveram investigar este efeito inesperado. Foram anos de pesquisa. Primeiro fizeram um teste onde a estrutura metálica era desconectada do fio-terra e as ondas eletromagnéticas deixavam de ser bloqueadas. Observaram que os pássaros perdiam a orientação. Depois repetiram o mesmo experimento em um arranjo duplo-cego onde nem as pessoas que executavam o experimento nem as pessoas que analisavam os dados sabiam se o equipamento estava ou não ligado ao fio-terra. Os resultados foram confirmados. Finalmente decidiram repetir os experimentos nos arredores da cidade, onde existia menos ruído eletromagnético, e descobriram que os pássaros se orientavam corretamente mesmo sem a gaiola de Faraday.

Agora, após dez anos de experimentos, eles publicaram os resultados. Os dados são tão impressionantes, e os experimentos tão bem controlados, que fica difícil de imaginar outra explicação. Somos forçados a concluir que o ruído eletromagnético provoca a desorientação de pássaros migratórios.

O resultado preocupante é que a quantidade de ruído necessário para alterar a orientação dos pássaros é muito, mas muito menor, que a quantidade de ruído eletromagnético considerada segura para seres humanos. Mas existe um consolo. As ondas eletromagnéticas que afetam os pássaros (comprimentos de onda entre 50 kHz e 5 MHz) não são as emitidas por telefones celulares ou por linhas elétricas de alta tensão. São semelhantes àquelas emitidas por estações de rádio AM e outras ondas emitidas por equipamentos eletrônicos.

Não há dúvida que este estudo vai reviver a polêmica do efeito de ondas eletromagnéticas sobre a saúde humana. Mas uma coisa é certa. Estes experimentos não demonstram que telefones celulares, linhas de alta tensão, ou qualquer outro tipo de onda eletromagnética, afeta a saúde de seres humanos.

MAIS INFORMAÇÕES: ANTHROPOGENIC ELECTROMAGNETIC NOISE DISRUPT MAGNETIC COMPASS ORIENTATION IN A MIGRATORY BIRD. NATURE VOL. 509 PAG. 353 2014

É BIÓLOGO

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