Rumo ao passado, à velocidade da luz

Imagine só: Se um alienígena de alguma galáxia distante apontasse seu telescópio para a Terra hoje, tudo que veria seria um planeta coberto de dinossauros! Nada de seres humanos, nada de casas nem fábricas nem cidades.   Da mesma forma, quando nós olhamos para galáxias e outros objetos distantes no universo, enxergamo-os não como eles são hoje, mas como eram centenas, milhares, milhões ou até bilhões de anos atrás. É como se você tirasse a fotografia de uma pessoa adulta hoje e ela aparecesse na imagem como um bebê.   Como isso é possível? Eu explico: Tudo que os nossos olhos enxergam é luz, seja a luz emitida pela tela do computador à sua frente ou a luz das estrelas de uma galáxia distante. E a luz é rápida, muito rápida, mas não é instantânea. Mesmo a 300.000 quilômetros por segundo (a velocidade da luz no vácuo), leva um certo tempo para que a luz emitida por um objeto qualquer chegue até os nossos olhos. Quando se fala de uma galáxia a dezenas de milhões de anos-luz da Terra, isso leva MUITO tempo.   O termo "anos-luz", por acaso, refere-se exatamente a isso: a distância que a luz percorre em um ano, que é aproximadamente 9,5 trilhões de km. Quando se diz que um objeto está a X milhões de anos-luz da Terra, isso significa que a luz emitida por ele leva X milhões de anos para chegar até nós. Conseqüentemente, a maneira como nós enxergamos esse objeto hoje é a maneira como ele existia X milhões de anos atrás.   O que me leva de volta ao exemplo dos dinossauros. Se um alienígena, habitante de uma galáxia a 70 milhões de anos-luz da Terra, por exemplo, apontasse hoje mesmo o seu super telescópio para cá, veria o planeta não como ele é hoje, mas como ele era naquela época, repleto de tiranossauros famintos e outros répteis gigantes. Nós mesmos, que estamos vivos hoje, só seremos visíveis para ele daqui 70 milhões de anos.   Nesse sentido, olhar para o espaço é uma viagem no tempo. Quando olhamos para aquelas fotos magníficas do telescópio Hubble, por exemplo (http://hubblesite.org/gallery/), estamos vendo o universo como ele era no passado, não como ele é hoje. O presente, infelizmente, só será visível no futuro.   Outro bom exemplo para entender isso é a estrela eta Carinae, mostrada na foto acima. O que você está vendo é a imagem de uma violenta explosão estelar ocorrida há pouco mais de 8 mil anos (ela está a 8 mil anos-luz da Terra), mas que só apareceu para nós agora, recentemente. O dois grandes lóbulos do "amendoim" são gigantescas nuvens de poeira ejetada pela estrela - coisa que ela parece fazer a cada 200 ou 300 anos. A estrela mesmo está escondida naquele miolinho luminoso, bem no meio.   Mas o que veríamos se pudéssemos olhar para eta Carinae como ela é de fato hoje, muitas e muitas outras explosões depois? "Certamente a estrela já se evaporou quase por completo, se é que já não morreu", responde o pesquisador Augusto Damineli, do Instituto de Astronomia (IAG) da Universidade de São Paulo. "Talvez ela já tenha explodido em uma hipernova, e a notícia está viajando pelo espaço nesse momento."   Damineli aponta um outro caso interessante, muito mais próximo de nós. O Sol está a 8 minutos-luz da Terra - o que significa que sua luz demora 8 minutos para chegar até nós. Portanto, quando você contempla um fim de tarde na praia, está vendo a posição do Sol com relação ao horizonte com 8 minutos de atraso. Quando você o vê mergulhar no horizonte, na verdade ele já fez isso 8 minutos atrás.   Pense nisso a próxima vez que olhar para um pôr-do-sol.

17 de abril de 2008 | 14h01

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