Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Sabedoria das multidões

Nas últimas décadas, surgiu a ideia de que em muitos casos a sabedoria das multidões é superior à dos especialistas

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2017 | 03h00

O método tradicional para obter uma informação consiste em descobrir uma fonte confiável e perguntar a ela. O princípio é que parte da população sabe a resposta correta e perguntar para qualquer pessoa ou para um número grande de pessoas aleatoriamente pode produzir a resposta errada. Esse raciocínio levou os gregos a excluir do grupo de votantes grande parte da população. Nas democracias modernas esse princípio foi abolido e cada pessoa tem direito a voto.

Nas últimas décadas, surgiu a ideia de que em muitos casos a sabedoria das multidões é superior à dos especialistas. O princípio por trás desse conceito é que em um grupo grande de pessoas sempre há os que sabem a resposta correta. A vantagem é eliminar o problema de escolher o especialista.

Mas como extrair a resposta correta de uma multidão? O método mais simples é assumir que a resposta correta é a fornecida pela maioria. Se perguntarmos a um grande número de pessoas se São Paulo é a capital do Estado de São Paulo a maioria vai responder “sim”, e essa é a resposta correta. Os poucos que responderam “não” serão minoria e, portanto, no critério da maioria serão desprezados.

Mas se a pergunta é “Nova York é a capital do Estado de Nova York?” A maioria vai responder “sim”. Nesse caso, a resposta da maioria é incorreta, pois a capital é Albany. O critério da maioria simples leva à resposta errada. 

Faz anos que os cientistas tentam descobrir um algoritmo capaz de extrair a resposta correta do conjunto de todas as respostas. O mais simples, que é considerar correta a maioria das respostas, é falho. Outros algoritmos foram sugeridos, como o grau de certeza que uma pessoa tem da resposta e usar esse dado para tentar computar o resultado. Esse método não funciona, pois as pessoas que respondem que Nova York é a capital geralmente têm certeza de que é a resposta correta. 

Mas agora um algoritmo capaz de fazer esse trabalho foi descoberto. A matemática por trás dessa descoberta é complexa, mas o conceito é simples.

Funciona assim. Você pergunta para um grande número de pessoas se Nova York é a capital do Estado de Nova York. A pessoa deve responder “sim” ou “não”. Em seguida, pergunta qual porcentagem de todos que vão responder essa pergunta responderão como ela. Ao final da pesquisa, você terá quatro números: quantos responderam “sim” e a estimativa feita pelos que responderam “sim” para a porcentagem de pessoas que responderiam como elas. E quantos responderam “não” e a estimativa feita pelas pessoas que responderam “não” para a porcentagem de pessoas que responderam como elas.

Imagine que nesse caso 95% das pessoas responderam “sim” e 5%, “não”. Os que responderam “sim” vão dizer que 99% das pessoas vão responder como elas, pois têm certeza que sua resposta é correta, apesar de ela estar errada. Já as 5% que responderam “não”, pois sabem que a capital é Albany, também sabem que grande parte das pessoas vai se enganar e dirão que 1% responderá como elas.

O algoritmo considera certa a resposta mais frequente que o valor predito. Nesse caso, o “sim” foi predito como certo por 99%, mas só obteve 95% dos votos. Já o “não” foi predito com correto por 1% das pessoas, mas obteve 5% dos votos. O “não” é a resposta correta, pois foi predita como correta por 1% das pessoas, mas obteve 5% dos votos. O nome que os cientistas deram a esse algoritmo é “surprising popular”, pois escolhe como certa a resposta mais popular que o predito.

Os cientistas testaram esse método e demonstraram que ele gera a resposta correta em diversos casos. Não funciona sempre, mas até agora é a melhor maneira de descobrir a verdade consultando um número grande de pessoas. 

INFORMAÇÕES: A SOLUTION TO THE SINGLE-QUESTION CROWD QUESTION WISDOM PROBLEM. NATURE VOL. 541 PAG. 532 2017

* É BIÓLOGO

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