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Saída do presidente do Ibama preocupa ambientalistas

A mudança na presidência do Ibama está criando grande expectativa entre os ambientalistas, que avaliam positivamente a atuação de Hamilton Casara, neste último ano à frente do órgão. "Casara havia assumido compromissos importantes, que vinha cumprindo, não só na Amazônia, no combate à exploração ilegal do mogno, como na Mata Atlântica, na tentativa de conter os desmatamentos no sul da Bahia", diz João Paulo Capobianco, do Instituto Socioambiental (ISA). "Sua saída traz uma grande preocupação com a continuidade, já que muitos problemas, apesar de encaminhados, ainda não foram equacionados". "O combate sistemático à exploração ilegal do mogno foi muito significativo e esperamos que o próximo presidente do Ibama dê continuidade a este combate, estendendo-o para o cerrado e a Mata Atlântica, que são ecossistemas igualmente ameaçados", diz Garo Batmanian, do WWF-Brasil.Para os ambientalistas, não basta que o substituto de Casara seja do Ibama, é preciso que ele combine o domínio técnico com um certo trânsito político. Hamilton Casara conhecia bem o Ibama, onde começou a trabalhar como contínuo, no setor de patrimônio do Amazonas, em 1980. Fez carreira técnica, após concluir a faculdade de agronomia (1986), tendo passado por diversos departamentos - manejo, pesca, fauna, planos emergenciais - em vários estados até voltar ao Amazonas, já como superintendente. Ali permaneceu de 1994 a 2001, passando a atuar de modo mais incisivo contra a exploração ilegal de madeira.Saiu da superitendência do Amazonas para a presidência do Ibama em janeiro de 2001 e, em pouco tempo, conseguiu mexer com várias estruturas cristalizadas, tornando a fiscalização mais eficiente e trabalhando com alternativas de manejo, complementares à proteção ambiental. Modificou até o orçamento do Ibama, antes concentrado na sede. Passou a investir 60% dos recursos nas regionais, em trabalhos de campo, deixando 40% para a sede (antes de sua gestão era o contrário: 60% para a sede e 40% para as regionais).Deu início a várias parcerias com organizações não governamentais, como a Renctas, no controle do tráfico de animais silvestres, e com a Polícia Federal, nas fronteiras, em rotas de contrabando e em localidades isoladas. Obteve também o apoio de muitas comunidades - de ribeirinhos, caiçaras, indígenas e extrativistas de todo o País - conseguindo reverter a situação de abandono de algumas unidades de conservação, com a colaboração destas comunidades, que passaram a funcionar como braços do Ibama, na condição de agentes voluntários, especialmente treinados. As mudanças por ele impostas aos velhos esquemas de corrupção, exploração de trabalho quase escravo e depauperamento dos recursos naturais lhe renderam algumas ameaças e a oposição de políticos locais. Desde outubro do ano passado, quando baixou portaria suspendendo a comercialização do mogno no País, uma série de ?coincidências? já vinha indicando o quanto ele incomodava. Por duas vezes, no espaço de uma semana, o avião em que ele viajava, na Amazônia, foi obrigado a fazer pousos forçados, com indícios de sabotagem. Casara ainda recebeu ameaças por telefone e foi obrigado a deslocar a família de Brasília, por questões de segurança.Mesmo assim, insistiu na ação contra a ilegalidade e irracionalidade na extração da madeira amazônica, negando-se, inclusive, a liberar 30 mil metros cúbicos do mogno apreendido no Pará, em terras dos índios caiapó. Cerca de 100 lideranças indígenas pediram pessoalmente a liberação, mas o presidente do Ibama resistiu. A atitude é rara, para não dizer inédita. Alguns grupos indígenas são sabidamente usados por exploradores ilegais de madeira e palmito e por garimpeiros, como testas de ferro, por sua condição especial perante a lei. No Brasil, negócios escusos, que envolvem recursos naturais e indígenas, costumam se perder no labirinto de influências políticas ou caem num vácuo de legalidade.Além da queda de braço do mogno, há a disputa pela exploração de camarões e mariscos nos mangues, sobretudo do Nordeste. Há o desafio de inserir as comunidades mais carentes no processo de utilização racional dos recursos naturais, ajudando-as a sair dos esquemas tradicionais de exploração predatórias, sem tirá-las da região onde sempre viveram. E há a necessidade de consolidar o trabalho iniciado nas rotas de tráfico de animais silvestres, que não é uma atividade esporádica, mas fruto do crime organizado, com conexões com o tráfico de drogas e roubos, com financiadores de peso e esquemas de lavagem de dinheiro. Casara associou-se à Polícia Federal também nesta frente, cuidando paralelamente de oferecer alternativas econômicas e educação ambiental às comunidades que tiram os animais da natureza para vender aos traficantes.O substituto de Casara terá menos de 10 meses pela frente e vai assumir num momento de tensão, com diversas situações não resolvidas ou processos em andamento. Estará no foco da mídia e da sociedade civil e poderá contar com o mesmo apoio de Casara, num primeiro momento. A dúvida é se assumirá com o mesmo empenho os compromissos do cargo.

Agencia Estado,

01 de abril de 2002 | 19h16

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