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Saímos da África faz mais de 2 milhões de anos

Achados arqueológicos põem mais 400 mil anos em nosso passado fora da África

Fernando Reinach*, O Estado de S. Paulo

11 Agosto 2018 | 03h00

Os cientistas acreditam que os hominídeos que deram origem à nossa espécie surgiram na África e depois se espalharam pelo planeta. Os ossos mais antigos de ancestrais do Homo sapiens encontrados na África têm aproximadamente 7 milhões de anos. 

As pedras lascadas mais antigas produzidas por nossos ancestrais são de 3 milhões de anos atrás e também foram encontradas na África. Fora da África, os ossos e as pedras lascadas encontrados são mais recentes. Os mais antigos foram encontrados na Georgia (1,78 milhão de anos), no norte e sul da China (1,66 milhão e 1,70 milhão de anos, respectivamente). No Oriente Médio, os mais antigos foram encontrados em Israel e na Turquia (1,2 milhão de anos) e os achados na Europa têm menos de 1 milhão de anos. 

Essas descobertas sugeriam que nossos ancestrais deixaram a África por volta dessa época. Mas agora isso mudou. Foram encontradas na China pontas de pedra lascada com mais de 2,12 milhões de anos. Com isso, nosso passado fora da África cresceu em 400 mil anos, quase 200 vezes o tempo decorrido desde o nascimento de Cristo.

Perto da cidade de Lantian, ao sul de Pequim, os cientistas encontraram um enorme barranco que corta verticalmente o solo. Nesse local, o solo é formado pelo acúmulo de um número enorme de camadas de sedimentos depositadas ao longo de milhões de anos. E foi nas paredes desse corte quase vertical de 78 metros de altura que cientistas pendurados em cordas fizeram escavações. Ao longo dos últimos 40 metros antes de chegar ao fundo, os cientistas descobriram 88 artefatos de pedra lascada e muitos ossos de animais. O mais interessante foi como os cientistas conseguiram descobrir a idade desses artefatos.

Talvez você não saiba, mas o campo magnético do planeta se inverteu dezenas de vezes nos últimos milhões de anos. Em média, ele inverte a cada 450 mil anos. E quando ele inverte, a bússola passa a apontar para o sul geográfico. Quando ele volta, aponta novamente para o norte geográfico. 

Nós nunca vivemos uma dessas transições, pois a última vez que isso ocorreu foi 780 mil anos atrás, por volta da época que o Homo sapiens surgiu no planeta. Essas inversões do campo magnético ocorrem rapidamente, a última inversão demorou e ocorreu ao longo de somente 100 anos. O período anterior, quando a bússola apontava para o sul, durou 120 mil anos. 

Sabemos que essas transições ocorreram porque, nos sedimentos contendo material ferroso que se acumulam no fundo de lago, as partículas imantadas se orientam de acordo com o campo magnético e apontam para o norte. Nos resíduos acumulados, por exemplo, 880 mil anos atrás, a orientação está invertida, e esse ciclo se repete. Nos últimos 5 milhões de anos, essa inversão ocorreu mais de dez vezes e sabemos exatamente quando elas ocorreram.

Análise

Os cientistas analisaram a orientação magnética do material ferroso de cada uma das camadas de rochas sedimentares encontradas em todos os 78 metros do corte na montanha e assim conseguiram determinar a idade exata de cada camada. De posse desses dados, eles conseguiram determinar a idade das camadas onde foram encontrados os 88 artefatos de pedra lascada. Nas camadas depositadas mais recentemente, de 1,3 milhão de anos, não foi encontrado nenhum artefato. 

Os 88 artefatos estão espalhados nas camadas mais antigas, que foram formadas entre 1,3 milhão de anos e 2,12 milhões de anos. Isso significa que hominídeos capazes de produzir artefatos de pedra lascada viveram nesse local por incríveis 800 mil anos! E mais importante: eles já estavam lá, no sul da China, 2,12 milhões de anos atrás.

A conclusão é de que ancestrais do Homo sapiens capazes de produzir instrumentos de pedra lascada deixaram a África faz mais de 2,12 milhões de anos. À medida que encontramos hominídeos fora da África em datas cada vez mais próximas das datas em que encontramos os mais antigos artefatos na África, fica evidente que os hominídeos saíram do continente não muito depois de terem surgido. 

E no limite, se no futuro forem achadas evidências de hominídeos fora da África mais antigos do que os encontrados no continente, teremos de reconsiderar nossa crença de que surgimos na África e nos espalhamos pelo planeta. Aí sim a história de nossa origem vai passar por uma revolução.

MAIS INFORMAÇÕES: HOMININ OCCUPATION OF THE CHINESE LOESS PLATEAU SINCE ABOUT 2.1 MILLION YEARS AGO. NATURE VOL. 559 PÁG. 60 (2018)

 

*É BIÓLOGO

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