São Paulo inova no controle à erosão

?Passar a máquina? sempre foi a única alternativa disponível para produtores rurais e prefeituras, para minimizar o problema dos atoleiros, valetas e barrancos instáveis, criados pela força das enxurradas, em estradas vicinais não pavimentadas. Uma solução temporária, repetida inúmeras vezes, a cada estação úmida, até afundar o leito da estrada, transformando-o em calha para as águas de chuva e tornando cada vez mais rasos os rios, por assoreamento.A opção inovadora surgiu há 3 anos, com um programa de controle da erosão, criado pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Seguindo a mesma lógica da conservação de solo dentro das lavouras, o programa incentiva a recomposição dos leitos das estradas, preenchidos até altura original, com a adoção de curvas de nível contínuas, que integram estrada e campos de cultivo. A água das chuvas não se concentra, não ganha a força das enxurradas e é canalizada para as caixas de contenção, dentro das áreas de produção, aumentando a infiltração no solo e conseqüente disponibilidade para as plantas. Em Botucatu, durante a visita da reportagem, toda a precipitação da noite anterior (42 mm) já havia infiltrado ao meio dia, sem qualquer dano aos terraços de contenção ou qualquer sinal de sulcos de erosão nas margens da estrada, apesar do solo ser de um tipo relativamente impermeável (podzólico) e estar encharcado, após uma semana contínua de chuvas.Resultados supreendentesNa primeira fase de implantação do Melhor Caminho (nome atribuído ao programa), os produtores resistiam em retirar as cercas para a reforma e viam com reservas o preenchimento dos leitos de estradas, afundados há tantos anos. Mas, agora, diante dos resultados, já estão pressionando as prefeituras para formar consórcios e repetir o procedimento em outros trechos das estradas. ?Fizemos um diagnóstico das principais causas de erosão em todo o estado, em 1999, e identificamos as estradas vicinais como a origem da erosão concentrada, onde se abrem as voçorocas?, conta o secretário de Ciência e Tecnologia, João Carlos Meirelles, à época titular da Agricultura. O programa já foi implantado no final de 1999 e início de 2000. Até dezembro de 2002, foram feitos de 1 a 3 trechos demonstrativos, com pelo menos 5 km cada, em 580 dos 645 municípios paulistas. Os trechos foram escolhidos com a participação dos produtores, prefeituras e usuários das vicinais, entre os leitos de estrada em pior situação, em cada município.?São Paulo tem 200 mil km de estradas de chão, seria impossível refazer tudo, porisso o trecho demonstrativo é feito em conjunto com as prefeituras, com capacitação dos técnicos municipais, e o programa, depois, tem continuidade através do apoio a consórcios de prefeituras, para a aquisição de máquinas próprias, o chamado Pró-estrada?, explica Meirelles. Continuidade garantidaNos consórcios, seis prefeituras vizinhas se unem e obtém recursos para a aquisição do maquinário pesado comum, a ser usado na reforma das estradas, conforme a metodologia usada nos trechos demonstrativos. Juntas, as prefeituras também elegem as prioridades regionais, estabelecendo, assim, um modelo de controle de erosão e gestão ambiental em parceria. Em dois anos ? o Pró-estrada começou em dezembro de 2000 - já se formaram 72 consórcios deste tipo, abrangendo 436 municípios (4 consórcios têm 7 prefeituras ao invés de 6). ?Para 2003, já temos pedidos de 109 municípios, para fazer 450 km de trechos demonstrativos do Melhor Caminho e pretendemos atender a esta demanda, além de intensificar o Pró-estrada, inclusive com o apoio de técnicos na capacitação dos operadores das máquinas, de forma a assegurar também uma manutenção mais barata e duradoura das estradas refeitas?, diz Duarte Nogueira, atual secretário estadual da Agricultura e Abastecimento. Segundo ele, as estimativas apontam para a perda de 193 milhões de toneladas anuais de solo por erosão, associada às estradas vicinais paulistas. ?E as camadas arrastadas pelas enxurradas são as de superfície, que reúnem as melhores condições de fertilidade, de modo que os prejuízos para a agricultura são imensos?, observa o secretário, manifestando a intenção de acelerar também a gestão integrada de microbacias, complementar ao controle de erosão nas estradas.Círculo virtuosoMais convencional, o programa de microbacias é realizado com apoio do Banco Mundial e incentiva o controle da erosão dentro das propriedades rurais e ao longo dos rios. Os técnicos da secretaria orientam os produtores a manter a cobertura vegetal do solo (para aumentar a infiltração da água de chuva); promover a recuperação de matas ciliares; fazer plantio direto, inclusive com financiamento para implementos agrícolas específicos; adotar a adubação verde, sobretudo nos terraços de retenção de água, entre outras medidas.?Mas 80% da área cultivada do estado ainda sofre processos de erosão acima dos limites de tolerância e 48,5 milhões de toneladas de terra chegam aos mananciais, por ano, fruto da erosão?, contabiliza José Luiz Fontes, gerente de planejamento do programa. Reverter este quadro não é fácil, uma vez que é preciso convencer os produtores a mudar hábitos arraigados. ?Nas pastagens, por exemplo, há financiamentos especiais para a construção de abastecedouros de água e cercas, de modo a evitar que o gado forme trilhas ao ir beber nos rios, abrindo caminho para a erosão?, continua. Em áreas de cultivo, os abastecedouros servem para a lavagem de tanques e pulverizadores, com o objetivo de evitar a contaminação dos cursos d?água por agrotóxicos.?Todos estes programas, mais os investimentos feitos em pontes e galpões de comercialização de produtos agrícolas, garantem a trafegabilidade permanente das estradas paulistas e permitem a diversificação da produção, porque, com o acesso às cidades, torna-se possível escoar rapidamente perecíveis como flores, frutas e legumes?, resume João Carlos Meirelles. ?Criamos, então, um círculo virtuoso, que resolve um problema dramático da natureza ? a erosão de solos ? e, ao mesmo tempo, gera desenvolvimento econômico com resultados sociais, pois o produtor e a família podem, se quiserem, voltar a morar na roça?.Veja galeria de imagens "Controle de erosão à paulista"

Agencia Estado,

03 de fevereiro de 2003 | 08h58

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.