Satélite Corot detecta 'terremotos' em três estrelas distantes

Missão, que conta com participação brasileira, também busca detectar planetas semelhantes à Terra

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

23 de outubro de 2008 | 16h01

Assim como terremotos permitem que se façam deduções sobre o que existe no subsolo da Terra, vibrações na superfície de uma estrela podem dar pistas importantes sobre o que ocorre no interior desses astros. As vibrações do Sol já são velhas conhecidas dos pesquisadores, mas um artigo na edição desta semana da revista Science, assinado por cientistas brasileiros e europeus,  traz a primeira descrição detalhada da sismologia de três estrelas distantes, todas um pouco maiores que o Sol.    Satélite vê astro intermediário entre planeta e estrela  Satélite acha planeta e estrela com movimentos sincronizados  Labaredas causam tremores no Sol, mostra estudo   "A superfície da estrela é como um instrumento musical ou uma caixa de ressonância", explica o físico José Renan de Medeiros, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um dos autores do trabalho. O artigo baseia-se em observações feitas pelo satélite Corot, lançado em 2006. "Ao medirmos as ondas que vêm do interior, estamos vendo como é o plasma dentro da estrela". Plasma é o nome do estado que a matéria assume a temperaturas extremamente altas.   "O fato de saber quais os movimentos no interior do plasma vão ajudar a entender as relações de uma estrela com seus planetas, por exemplo, por meio do campo magnético", diz Medeiros. As oscilações das estrelas são provocadas por convecção - a elevação do plasma mais quente rumo à superfície, e a submersão do mais frio. Esse movimento é um dos determinantes do campo magnético estelar. Na Terra, a convecção do ar na atmosfera é um fator importante na formação do clima.   Além das oscilações, o Corot encontrou também granulações na superfície das estrelas. "São as células de convecção que sobem à superfície", diz Medeiros, comparando a granulação ao movimento da canjica cozinhando em uma panela. "E esta foi a primeira observação em que se pôde dizer com certeza, ali é uma granulação".   O cientista acredita que esses resultados deverão estimular novos investimentos em satélites para o estudo da estrutura das estrelas, já que as observações do Corot mostraram-se muito mais precisas do que as que são possíveis a partir da superfície terrestre. "Já estamos trabalhando na próxima geração, o satélite Plato (Platão, nome de um filósofo grego)", diz ele. "É um projeto de gestação longa, talvez para 2013". A Nasa tem um satélite de características semelhantes ao Corot, o Kepler, com lançamento previsto para março de 2009.   O Brasil é parceiro do Corot. Além do envolvimento de cientistas brasileiros no projeto, ao passar sobre o hemisfério sul o satélite descarrega suas informações científicas numa estação brasileira.   O francês Eric Michel,  principal autor do artigo na Science, explica que as oscilações detectadas pelo Corot nas três estrelas - localizadas a distâncias de 100 a 200 anos-luz da Terra - foram captadas graças a variações na temperatura dos astros, da ordem de um milésimo de grau na superfície. "Isso leva a variações de poucas partes por milhão na luz recebida da estrela pelo satélite", diz. "O Corot foi projetado para captar diferenças de até 0,6 parte por milhão". Michel compara as vibrações detectadas a uma pulsação da estrela.   Além de captar o pulso das estrelas, o Corot também foi construído para descobrir planetas semelhantes à Terra. Michel diz que o satélite é capaz de distinguir as variações na luz de uma estrela produzidas pela vibração das que seriam causadas pela passagem de um planeta entre o astro e a linha de visão do equipamento, um fenômeno chamado ocultação. "As oscilações ocorrem em várias dezenas de modos individuais, com a freqüência distribuída de acordo com padrões característicos", diz. "Ocultações planetárias não gerariam esse tipo de oscilação, numa freqüência tão alta".   Até o momento, o Corot encontrou seis planetas em órbita de estrelas distantes, mas nenhum deles semelhante à Terra. "Os dados estão sendo tratados", disse Medeiros, referindo-se às leituras feitas pelo satélite. O pesquisador espera que o cálculo que vai provar a existência do primeiro irmão da Terra no espaço seja feito no Brasil. Segundo ele, os brasileiros têm experiência com as técnicas estatísticas que poderão revelar esse planeta. "A busca por novos mundos tornou-se uma corrida", diz.

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